Júlio Dinis

TERÇA-FEIRA

II

 

Ora, no pobre palheiro

Do pescador que tardava,

Eis que ao alvor primeiro

Desta manhã se passava:

 

Ele acordara, e na esposa,

Que ao lado dorme tranquila,

Repousa a vista amorosa,

E ao despertá-la, vacila.

 

Vacila — se é tão suave

Aquele dormir ! tão brando!

Mas não sei que ideia grave

Lhe está na mente pesando.

 

Ternamente ao seio a aperta,

E lhe diz com gesto ameno:

— «Mulher, teu filho desperta,

Acorda-me esse pequeno.»

 

A jovem mãe estremece

— «Que acorde meu filho, dizes !

Deixa-o dormir. Deus lhe desse

Sempre assim sonos felizes.»

 

— «Acorda teu filho, acorda,

Tal dormir não é para ele;

Tempo é que da lancha à borda

Como os outros também vele.»

 

— «As lanchas! ao mar!... pois queres?...»

E a mãe empalidecia.

— «Nesta vida de mulheres

Não é que um homem se cria.»

 

— «Mas tão novo!...» — «Inda mais novo

O meu pai me levou consigo.»

— «Mas... —já se fala entre o povo

«Do rapaz». — Mas ouve, amigo... »

 

E a voz trêmula e chorosa

Quase em choro se afogava.

Curvara-se ao mar a esposa,

Mas a mãe, essa, hesitava.

 

Hesitava, que se lhe ia

A alma toda, dando aos mares

O filho, a sua alegria,

O lume dos seus olhares.

 

— «Ouve», murmura, chorando

«Por Deus te vou pedir isto!»

E depois, em tom mais brando,

«Em nome de Jesus Cristo!

 

«Deixa-mo ficar, marido,

Hoje só, ai! hoje ao menos!...

Fraco auxílio o recebido

Dos braços desses pequenos!

 

«Bem sabes que tudo os cansa...

Sempre sois tão desumanos!

E depois... essa criança

Inda não fez os dez anos.»

 

— «Agoura-me bem o dia

Para lhe abrir a carreira.»

— «Porém, ó Virgem Maria,

E hoje então que é terça-feira!»

 

— «Mulher, deixa essas ideias,

Iguais são todos os dias;

Em maus agouros não creias,

Se é que no Senhor confias.

 

«Apronta teu filho, apronta,

Que hoje há de entrar na partilha,

E olha que o Sol já desponta;

Anda, acorda-o, minha filha.»