Marquesa de Alorna
Almeirim, 1800
Enganas-te; não posso tanto, tanto
Quanto esperas de mim, quanto me pedes;
Mais vida, mais vigor têm estas plantas,
Os arbustos que crescem nestes prados.
Vegeto as mais das horas; se me acorda
Deste triste letargo algum assunto,
Ou vem rompendo nuvens de cuidados
Em que envolta me traz a sorte austera,
Ou, qual trovão que vibra a mão de Jove,
De mil sustos me assombra o fraco peito.
Da vida a brevidade nos proíbe
Entablar esperanças dilatadas;
A Parca é surda ao nosso humilde rogo,
E já de um sopro seu envenenado
Me apagou de uma vez todo o Universo.
Eis aqui como, aflita e sepultada
Nos abismos do puro sentimento,
Me separo da classe dos viventes.
Mas então, radiante, a razão surge,
E, ao clarão dos seus raios luminosos,
Vou distinguindo os erros da tristeza,
E aprendo filosóficos preceitos,
Que, mansa, a paciência me decora.
Fortificada assim, os olhos lanço
Sobre o painel da Criação, tão vasto.
Nos meus ermos com a mente os Céus abranjo,
Da Natureza estudo os três domínios,
E enquanto desenvolve a Primavera
A força vegetal, que os campos veste,
Faço dormir a dor, caio as saudades.
Flora, por deleitar-se, um dia claro
Desceu do Olimpo à terra, e destramente
Classificou as plantas variadas;
E, em prémio da razão aindagadora,
Revelou a Lineu grandes mistérios.
Flora mesma também me vai guiando,
E sem séquito, mais que alguns perfumes,
Os ventos brincadores e o sossego,
Me comunica as leis simples, sublimes,
Com que a família rege e desenvolve
Das lindas liliáceas que hoje apontam.
Cedo virão do Tlaspe argênteo as flores
Distinguir nas crucíferas as raças;
De flóreas borboletas brevemente
Se há de a terra cobrir, há de enfeitar-se.
Vês tu na Corte um tronco mui frondoso,
Cujos ramos ou tribos nos recordam
Da antiga lei as bênçãos tão famosas?
Eu também, cá no campo, também vejo
O Gerânio cheiroso, que sem fausto
Cento e tantas espécies me apresenta.
Nunca um só indivíduo desta prole
Teve cargos nem postos que agitassem
As pacíficas leis das outras plantas.
Que modelos não tem a Natureza,
Que, brilhando no objeto inanimado,
Envergonham a espécie inteligente!
Repara na Umbelífera vistosa:
Dos pedúnculos desta saem raios,
Destes raios os filhos todos pendem;
O mesmo suco a todos vivifica,
Todos a um tempo os raios do Sol gostam,
Vivem juntos, e todos juntos morrem.
Ai de nós! Quão diversa é nossa sorte!
Que divisões, que lutas, e que estragos
Semeiam as paixões entre os humanos!
Se no seio das ondas empoladas,
Nos mares da política, entre escolhos,
Passas teus dias, praza a Deus que possas
Aportar felizmente nestas praias!
Sincera gratidão aqui te espera,
E um lugar consagrado a engenhos claros.
Nem pórticos marmóreos, nem colunas
Que cinzelasse em Paros mão perita,
Hás de achar neste sítio: altos pinheiros
Formam de espessa rama o nosso teto,
E gramínea alcatifa nos oferece,
Para pensar, lugar acomodado.
Uma fonte serena ali murmura,
E, mil vezes afoita, a fantasia
Cuida ouvir revolver-se dentro de água
A Náiade gentil que lhe preside.
Se agita o vento as canas buliçosas, (*)
Se da serra um rochedo assusta a vista,
Mitológicos sonhos me recordam
Ora aquela que a dor petrificara,
Ora a Ninfa medrosa e fugitiva
Que o pudor converteu em verde junco.
[() Alusão a Val de Nabais, sitio não longe da Serra de Almeirim.] *
Com palavras e ideias todo o globo
Corre depressa aquele que conversa.
Quando se esconde o Sol, e a noite ostenta
De entre sombras milhões de astros luzentes,
Para entreter as filhas com proveito,
Vou revolver então montes de idades.
Vinte séculos voam, quando apenas
Vem surgindo das trevas rutilante
O Pai dos Crentes, cujos passos guia
Deus mesmo para a terra onde o estabelece.
Então de lá do Egipto o Rei primeiro
Vem pôr da glória grega os alicerces:
Vem Cécrops depois fundar Atenas.
Atenas!... este nome as cenas abre
De heroísmo, valor, artes e engenho.
Itália, que hoje assusta mão terrível
De um Guerreiro rebelde e temerário, (*)
Dormia então de fábulas coberta,
Nem raiava o crepúsculo dos dias
Que ilustrou Cipião, Fabrício e César.
[() Bonaparte.] *
Com os mapas na mão, aventurando
A memória, lhes digo: Aqui foi Troia.
Se a colisão moderna acaso fosse
A fatal colisão da argiva gente,
Talvez como os de Pérgamo, infelizes,
Os muros de Paris já vacilassem...
Mas suprimo as palavras neste assunto,
E um grilhão ponho até no pensamento.
Distrai-me a vista ali no mar vizinho
Lesbos, pátria de Alceu, de Ema e Safo;
Vêm as mágicas artes lançar fora
O tédio das lições, do estudo austero;
Ora a voz, ora a mão industriosa,
Copiando modelos mais amenos,
Dão alma aos sons, e vida à tela e cores.
Vem pensar como nós, vem por un pouco
Ver triunfar as Águias nestes ares,
Enquanto sobre o Ádige, infelizmente
As insulta esse Córsega inumano.