Júlio Dinis
Partes! A longas terras
Vais procurar riqueza;
E eu, morta de tristeza
Fico sozinha aqui!
Leva-te destes montes
Uma ambiciosa ideia,
E eu nesta pobre aldeia
Fico pensando em ti.
Tentar fortuna ao longe!
Ó pobre e amado louco!
Não sabes tu que pouco
Basta para ser feliz!
Porque não hás de achá-la
E o bem que assim procuras,
Aqui, entre as verduras
Do teu e o meu país?
Mas vai, mas parte. É sorte!
Vai; segue o teu caminho,
Ave que deixa o ninho
Onde feliz viveu.
Vai, e dos mares volta-te
As vezes deste lado,
E o meu olhar magoado
Encontrará o teu.
E lá, por outras terras,
Lã, nesse clima novo,
Lembre-te o humilde povo
Em que viveste em paz;
Lembre-te ainda o afeto,
Ai, deixa-me que o diga
Da pobre rapariga
Que nunca mais veras.
Dizem que nessas terras
Há bosques e florestas
Mais verdes do que estas
Que lemos por aqui;
Que há aves mais formosas,
Que há árvores maiores,
E tantas, tantas flores,
Como eu ainda não vi.
Se for assim, quem pode
Ter ainda uma esperança
Que guardes a lembrança,
Sob esses novos céus,
Dos soutos, das devesas,
Dos pássaros, das fontes,
Dos pinheirais, dos montes,
A que disseste adeus?
Porém lembra-te ao menos
Que aqui onde nasceste,
À sombra do cipreste,
Dormem teus velhos pais;
Por longe que tu andes,
Manda-lhe uma prece:
Esquece, embora, esquece
Pra sempre tudo mais.
Toma esta cruz benzida
Para a trazeres contigo;
Crê que em qualquer perigo
Ela te valerá!
Depois... talvez ao vê-la
Te lembres algum dia
Daquela que a trazia,
Da triste que ta dá.
E se passados anos,
Saudoso enfim voltares
De novo a estes lugares
Que deixas amanhã,
Entra no cemitério,
E da erva entre a verdura
Verás a campa obscura
Da tua... pobre irmã.
É força partir! Vamos,
Vai alta a Lua. É tarde,
Há muito já que arde
O fogo no meu lar.
Ai, quantas vezes, quantas
Ali vinhas sentar-te!
E agora... e agora... Parte
E deixa-me chorar.
Perdoa-me este pranto;
É o último que choro.
Vai... vai... não te demoro
Mais com lamentos meus.
Bem vês, já estou contente,
Vai... sê feliz e rico,
E eu... alegre fico
Com minha mãe... Adeus!
1868