Júlio Dinis

PRESSÁGIO

Era em florente Junho;

A Lua se ostentava

Serena no seu brilhar;

A brisa na alameda

Saudosa suspirava

Nas folhas ao passar.

 

Contigo, eu só no bosque

Ouvia-te, tao triste,

Soltar, mais triste, a voz;

Falavas magoada

Da paz que só existe

Da fria morte após.

 

E os olhos lacrimosos

Fitavas nos espaços

Da mais amena cor,

Como se desejasses

Romper terrenos laços

E o azul do céu transpor.

 

Calado eu te fitava,

Porém ao ver-te o pranto

Banhar-te a face assim,

Não sei que dor pungente,

Não sei que mago encanto,

Me fez falar-te enfim.

 

E disse-te: «Não chores,

Na Terra é tudo flores,

No Céu é tudo luz.

Escuta os sons do bosque,

Respira os seus odores,

O aroma que seduz.»

 

Olhaste-me e sorriste;

E quanto não diziam

Então os olhos teus!

Quão íntima tristeza,

Que dor não refletiam

Quando os erguestes aos céus!

 

E eu ficava mudo,

Olhando-te inquieto,

Sem bem te compreender;

E um ramo de cipreste,

O arbusto teu dileto,

Vieste-me oferecer.

 

«Bem vês, da campa à beira

Também a flor rebenta»,

Disseste-me a sorrir,

«Também no chão da morte

De seiva se alimenta,

Também a vês florir.

 

«Quem vir esta campina

Virente e matizada

Viçar à luz do Sol,

Dirá, que neste manto

Se envolve a fria ossada

Do morto no seu lençol!»

 

De novo emudeceste,

E eu, triste, contemplei-te:

Mas não, não te entendi,

Parecia que na mágoa

Achavas um deleite,

Qual nunca igual senti!

 

Mas cedo teus perfumes

Da Terra aos Céus subiram,

E soube tudo então!

Era uma voz profética

Das que o poeta inspiram,

Falando ao coração.

 

No meio dos festejos

Da estiva natureza,

Sentias só a dor,

Vias a campa aberta

E na sua profundeza

Sumir-se a esperança em flor.

 

E hoje, sim, compreendo

Tua conversa triste,

Quando comigo a sós...

E porque a entende agora?

Não sei.

Talvez existe

Em mim a mesma voz.

 

Oh! sim, ele me mostre

No meio destas galas,

Que vejo em torno de mim,

A terra húmida e fria,

Do cemitério as valas

E o esquecimento enfim.

 

Abril de 1860.

 

Nota do Autor. — Esta é filha de um momento de spleen. Pareceu-me

verdadeira então, hoje não. Estes pensamentos lúgubres acometem-me de vez em quando, mas passam. Estando dominado por eles, acho nesta produção um valor que depois, debalde lhe procuro.

Não é decerto no primeiro caso que melhor a avalio no que ela vale. Não há

ninguém que não tenha os seus momentos de hipocondria, muitos com

menos razões do que eu.

Desculpem-me portanto os efeitos de um desses momentos.