Júlio Dinis

METEORO

Não a viram passar? Era no Outono;

Quando languesce a flor, quando na selva

Se cala o rouxinol e ao abandono

Jazem as folhas na crestada relva.

 

Não a viram passar? As altas neves

Revestiam das serras as cumeadas,

E em vez das brisas perpassando leves,

Assopravam violentas as rajadas.

 

No meio da tristeza destas cenas,

Ela só, muda e pálida, sorria,

O seio a anuviar-se-lhe de penas,

O rosto a iluminar-se de alegria.

 

Não a viram? Passou. A natureza

É outra vez de galas revestida,

Mas minha alma é coberta de tristeza

Como naquele instante da partida.

 

Setembro de 1860