António Pereira Nobre

Da Influência da Lua

Outono.

O sol, qual brigue em chamas, morre

Nos longes de água.... Ó tardes de novena!

Tardes de sonho em que a poesia escorre

E os bardos, a cismar, molham a pena!

 

Ao longe, os rios de águas prateadas

Por entre os verdes canaviais, esguios

São como estradas líquidas, e as estradas

Ao luar, parecem verdadeiros rios!

 

Os choupos nus, tremendo, arrepiadinhos

O xaile pedem a quem vai passando...

E os seus leitos nupciais, os ninhos

As lavandiscas noivas piando, piando!

 

O orvalho cai do céu como unguento.

Abrem as bocas, aparando-os, os goivos;

E a laranjeira, aos repelões do vento,

Deixa cair por terra a flor dos noivos.

 

E o orvalho cai...e a falta de água, rega

O vale sem fruto, a terra árida e nua!

E o Padre-Oceano, lá de longe, prega

O seu sermão de lágrimas à lua!

 

A Lua! Ela não tarda aí, espera!

O mágico poder que ela possui

Sobre as sementes, sobre o oceano impera,

Sobre as mulheres grávidas influi...

 

Ai os meus nervos, quando a lua é cheia!

Da arte novas concepções descubro

Todo me aflijo, lá fazem ideia...

Ai a ascensão da Lua em Outubro!

 

Tardes de Outubro! Ó tardes de novena

Outono! Mêsde Maio, na Lareira!

Tardes.....

 

Lá vem a Lua, gratiae plena

Do convento dos céus, a eterna freira!