Júlio Dinis
II
Como a Senhora está linda
Com o seu mais rico vestir!
Correm-lhe em chusma os doentes
Muito tem ela que ouvir!
Todos lhe trazem promessas
Com ferventes devoções:
Membros, pés e mãos de cera,
Jazem no altar aos montões;
Quem lhe der um pé de cera,
Logo do pé sarará;
Quem mãos de cera lhe ofereça,
A mão curada verá.
Mancos, que à romagem foram,
Vêem-se na corda saltar;
Outros de mãos aleijadas,
Destros agora a tocar.
Da alva cera de uma vela
Fez a mãe um coração.
— «Leva isto à
Virgem Maria,
Que te cure essa paixão.»
Gemendo, o filho a recebe,
Gemendo a vai ofertar;
Dos olhos lhe brota o choro
Do coração este orar;
— «Ó Maria gloriosa!
Serva pura e mãe de Deus:
Virgem, dos Céus Soberana,
Escuta os lamentos meus!
«Em Colônia, onde as igrejas
Se podem contar às cem,
Os meus dias descuidado
Passava com a minha mãe.
«E junto de nós vivia
Margarida... a que morreu...
Dou-te um coração de cera,
Cura as feridas do meu!
«Cura minha alma dorida,
Que eu com devoto fervor
Direi de dia e de noite:
— «Glória a ti. Mãe do Senhor!»