Francisco de Sá de Miranda

Carta

As vossas velas, que vão,

Dando quase ó mundo volta,

Raramente contarão

Gente doutro algum rei solta;

Sem cabeça o corpo é vão.

 

Dignidade alta e suprema,

Que há que a não reconheça?

Viu-se em Marco Antônio tema

De pôr real diadema

A César sobre a cabeça.

 

Que nome de imperador

Dantes a César se dera

Sem suspeita, e sem temor;

Que inda então muito mais era

Ser cônsul, ser ditador.

 

Um rei ao reino convém;

Vemos que alumia o mundo;

Um sol, um Deus o sustém:

Certa a queda, e o fim tem

O reino onde há rei segundo.

 

Não ao sabor das orelhas,

Arenga estudada e branda;

Abastam as razões velhas:

A cabeça os membros manda;

Seu rei seguem as abelhas.

 

A tempo o bom rei perdoa;

A tempo o ferro é mezinha:

Forças e condição boa

Deram ao leão coroa

De sua grei montezinha.

 

Às aves, tamanho bando

Doutra liga, e doutra lei,

Por vencer todas voando,

A águia foi dada por rei,

Que o sol claro atura olhando.

 

Quanto que sempre guardou

David lealdade e fé

A Saul, quanto o chorou!

Quanta maldição lançou

Aos montes de Gelboé!