Júlio Dinis

PRECE DO CORAÇÃO

Ludibrio das vagas, que agita a procela,

Em noite de trevas, do oceano ao fragor,

Na terra uma praia, no espaço uma estrela,

O nauta, prostrado, te pede, Senhor!

 

Que, se é triste a morte, mais triste é por certo

Se, no último instante do nosso existir,

Olhando o horizonte, de nuvens coberto,

De esperança uma estrela não vemos luzir.

 

Nas vagas da vida, meu barco perdido

Errante navega, sem norte, sem luz,

Não sei porque ventos me sinto impelido,

Não sei a que praias o mar me conduz.

 

Sulcando estas ondas, eu vejo ao meu lado,

Cruzarem-se afoitos mil outros também;

Os ventos dirigem seu curso apressado,

Na esteira que eu sigo... mas passam além.

 

E eu... Que viagem! Que triste destino!

Que vida, ai, que vida meu fado me deu!

Vogar incessante, sem rumo, sem tino!

Rodeado de trevas, na Terra e no Céu!

 

Senhor ! novo nauta no oceano da vida,

Se as águas furiosas me têm de tragar,

Oh! dá-me que em antes da extrema partida,

A estrela que eu sonho me venha animar.

 

Que o veja um momento, no espaço fulgindo,

O astro dourado, que em sonhos eu vi!

Quem não amou nunca, da vida partindo

Mal pode, ao deixá-la, dizer: já vivi!

 

1859