Júlio Dinis
VI
Só à luz da madrugada
Se acalma a brava tormenta.
Que noite em ânsias passada,
Tão pavorosa! tão lenta!
O céu reflete nas águas
A cor azul de bonança.
E vai sanando as mágoas
A branda luz da esperança,
— «Barcas ao longe! não vedes!
Oh! que alegria tamanha!
Deus abençoou as redes,
São as lanchas da companha.»
Crianças, mulheres, velhos,
Ao ouvirem este grito,
Todos, todos de joelhos
Cantam piedoso Bendito.
Ei-las vêm! Braços valentes
Afeitos àquela guerra,
Cortando os mares frementes
As impelem para a terra.
Na turba dos pescadores
A mãe com turbado aspeto,
Inda escuro de terrores,
Procura o filho dileto.
Tudo exulta de alegria;
Cada qual os seus conhece...
E ela só, muda, sombria,
Sobre a praia permanece.
Ei-los enfim! Que transportes,
Que lágrimas os esperam!
Vêem-se chorar os mais fortes
Dos que no mar não tremeram.
Por entre os grupos vagueia
A mãe, trêmula, calada,
De negros agouros cheia,
De vago pavor tomada.
Quase em delírio vê tudo,
Como se através de um sonho;
De repente um grito agudo
Soa na praia medonho.
É que pálido, abatido,
Junto ao mar o esposo vira;
E que terrível sentido
Naquela dor descobrira.
— «Que negro presságio é este
Que leio nos teus olhares?
Do meu filho o que fizeste?»
— «Pergunta-o a esses mares.»
No grito que a triste solta
Vai-lhe a razão, mais que a vida!
Depois para o mar se volta,
Turba, pálida, perdida...
— «Não! não hás de assim roubar-me
O filho destas entranhas,
Não podem intimidar-me
As tuas iras tamanhas.
«Não vês que tenho no seio
Este amor?
Espera, espera,
Ruge ! não tenho receio;
Ruge, amaldiçoada fera!
«Ruge!» e sem tino, movida
Da alucinação que a agita,
Rompendo em veloz corrida,
Nas ondas se precipita.
Em vão lhe açodem, que forte
O filho às vagas disputa.
Era um combate de morte!
Era uma tremenda luta!
E na manhã do outro dia
Viu-se na praia arrojada
A mãe, que, morta, sorria
Do filho ao corpo abraçada.
1865