Júlio Dinis

SAUDADE

«A saudade, a fada amiga

Que nos renova o passado,

Como em jardim encantado,

Por seu mágico condão...

Os prazeres da criança,

Alvos sonhos de inocência,

Os fogos da adolescência,

O nascer do coração...

 

«A saudade, a ama dileta,

Que o sono nos acalenta,

E junto de nós se assenta

A falar-nos com amor!

Essa fiel guardadora

De nossas gratas memórias

Que sabe as longas histórias

Da nossa vida, de cor!

 

«A saudade, a irmã bem-vinda,

À noite, às horas quietas,

Em que amantes e poetas

Livre curso à mente dão;

A virgem pálida e triste,

De branda melancolia,

Que as penas nos alivia,

Que nos mitiga a paixão!

 

«Tens ao teu lado a saudade

Falando-te em voz dolente.

De uma memória recente,

De uma luz que se apagou...

Luz que tomaste por guia

Para termo da viagem;

Mas que o sopro de uma aragem,

Brandas, apenas, apagou.»

 

1865.