Júlio Dinis

A NOIVA

(NO ÁLBUM DA EXMA. SRA. D. ISABEL M. FIGUEIREDO DE CARVALHO)

 

Mal as regiões do oriente

A luz da manhã tingia,

Já ao cristalino espelho

A linda noiva sorria,

E a alva flor da laranjeira

Ao véu de neve prendia.

 

A noite passara à vela

E que noiva a dormiria?

E ao desmaiar das estrelas,

Alvoroçada se erguia.

E a alva flor da laranjeira

Ao véu de neve prendia.

 

Depois, ligeira, impaciente,

Chegava-se à gelosia

A ver se o sol já dourava

Os cimos da serrania,

E a alva flor da laranjeira

Ao véu de neve prendia.

 

De vez em quando chorava...

 

E o que chorar a fazia?

Saudades do que passara?

Terrores do que viria?

E a alva flor da laranjeira

Ao véu de neve prendia.

 

Mas são lágrimas de noiva,

Um só beijo as secaria,

São como gotas de orvalho

Quando o Sol as alumia;

E a alva flor da laranjeira

Ao véu de neve prendia.

 

Que longo porvir d'amores,

Que futuro de poesia,

Que palácios encantados

Lhe pintava a fantasia,

Quando a flor da laranjeira

Ao véu de neve prendia!

 

E ao casto leito de virgem

Dentro da alcova sombria,

A noiva, de vez em quando,

Inquieta os olhos volvia;

E a alva flor da laranjeira

Ao véu de neve prendia.

 

Por entre o rosai florido,

Que o balcão lhe entretecia

As avezinhas cantavam

Com festiva melodia.

E ela a flor da laranjeira

Ao véu de neve prendia.

 

Alto ia o Sol, resplendente

Na manhã daquele dia,

Cuja noite... Esta lembrança

Da noiva as faces tingia;

E a alva flor da laranjeira

Ao véu de neve prendia.

 

A mãe, vendo-a tão formosa,

Julgava um sonho o que via,

Que o vestido de noivado

As graças lhe encarecia,

E a alva flor da laranjeira

Do véu de neve pendia.

 

Vêm as irmãs, que a contemplam

Com inveja, eu juraria:

Ela baixa os olhos, cora,

O que mais bela a fazia,

E a alva flor da laranjeira

Do véu de neve pendia.

 

Junto delas, perturbada,

Quase nem falar podia;

Só as mães bem compreendem

O que a noiva então sentia,

Quando a flor da laranjeira

Do véu de neve pendia.

 

As horas passam tão lentas!

E o coração lhe batia,

A mãe chorava, coitada,

Com saudades o fazia;

E a alva flor da laranjeira

Do véu de neve pendia.

 

A sala já estava cheia;

A noiva achava-a vazia,

Que entre tantos convidados

Ainda o noivo se não via;

E a alva flor da laranjeira

Há muito do véu pendia!

 

Passa a manhã, e não chega!

Não chega, e é já meio-dia!

Nas varandas, nos eirados,

Se dispersa a companhia;

E a alva flor da laranjeira

Há tanto do véu pendia!

 

O rosto da bela noiva

Cada vez mais se anuvia,

Não sei que voz misteriosa

Desgraças lhe pressagia;

E a alva flor da laranjeira

Inda do véu pendia.

 

Fenece a tarde. Eis a noite,

Hora de melancolia.

No rosto dos convidados

Desassossego se lia,

E a alva flor da laranjeira

No véu da noiva tremia.

 

Tudo é silêncio. A coitada

Uma estátua parecia...

 

Tão pálida como mármore,

Como ele imóvel, fria;

Só a flor da laranjeira

No véu da noiva tremia.

 

Abrem-se as portas. «É ele!»

Disse toda a companhia:

Porém ilusória esperança!

Um pajem só aparecia:

E a alva flor da laranjeira

Do véu da noiva caía.

 

Tristes novas traz o pajem,

Que triste o rosto trazia;

Fez-se um silêncio profundo

Entanto que ele as dizia,

E a alva flor da laranjeira

Inda por terra jazia.

 

Dispam-se as galas da festa,

Calem-se os sons da alegria,

Que morto em cruel combate

O noivo... Um grito se ouvia,

Junto à flor da laranjeira,

A noiva no chão caía..

 

Cercam-na todos... debalde,

O seio já não batia;

Aquela mimosa planta

Sem alentos sucumbia,

Como a flor da laranjeira,

Derrubada ali jazia.

 

Mal sabia a pobre noiva

Pra que bodas se vestia!

Mal sonhava a desposada

Que a morte esposar devia!

Quando a flor da laranjeira

Ao véu da neve prendia.

 

Com as vestes do noivado

Para o sepulcro ela se ia;

Em vez do rubor da noiva

A palidez da agonia

E a alva flor da laranjeira

Do véu de neve pendia.

 

Tantos sonhos que sonhara!...

Tanta esperança que nutria!...

Por esposo tinha a morte,

Por tálamo, a lousa fria,

E a flor da laranjeira

Com ela à campa descia.