Marquesa de Alorna
Natércia, já te não lembra
Uma amiga solitária
Que vegeta nestas selvas,
Ou luta com a sorte vária?
Sabes como passo os dias,
Sem te ouvir ou sem te ver?
Se as Parcas me não acabam,
É que têm mais que fazer.
Nessa terra dos Latinos
Andam talvez ocupadas,
Cortando as vidas felizes,
E alongando as desgraçadas.
Se eu duro, faz-me durar
Talvez a doce esperança
De que Natércia me guarda
Um momento na lembrança.
Dá-me provas disto, Amiga,
Lendo no meu coração.
Conforta-o de vez em quando,
O Céu te achará razão.
Lê neste o que te não digo,
Pois, firme por natureza,
Sei lançar, quando convém,
Duros grilhões à tristeza.
Ás vezes sinto-a gemer,
Encarcerada no peito;
Mas, impondo-lhe silêncio,
Segue o rígido preceito.
Inda não cultivo a terra,(1*)
Não sei porquê, na verdade;
Nem cumpri o voto puro(2*)
Que fiz à santa amizade.
[() 1 - Porque me faltava a posse das terras que tinha aforado à Coroa. 2 - Tinha feito a promessa de
plantar um freixo em honra de Natércia (Notas da Autora).] *
Já diversas estações
Para gentes mais felizes
Deram tempo ao que plantaram
De lançar longas raízes.
Eu, Natércia, inutilmente
Os dias contando vou;
Murchou-se a minha ventura,
Tudo para mim murchou.
Ando às vezes nestes campos
Buscando flores bravias;
Com isso engano desejos,
E encurto penosos dias.
Ando fingindo que vivo
Com ações, com movimento;
Mas é falso, que só vivem
Os que têm contentamento.
Este meu doce viveiro,
Penhores de eterno amor,
Tenho medo que não medre,
Faltou-lhe o cultivador.
Esta geração moderna
Que em torno de mim gorjeia,
Com sons como os passarinhos
Os meus ouvidos recreia.
Porém, Natércia, que são
Sons, contra penas tão graves?
Não têm vigor de abrandá-las,
Bem que pareçam suaves.
Um parte daqui, correndo
Atrás de uma borboleta,
Outro de uma cana forma
Uma espingarda, uma seta.
Entretanto eu, cogitando
Em mil casos desastrados,
Tenho tempo de lutar
Comigo e com os meus cuidados.
Não quero turbar os gostos
Da pacífica inocência,
Nem com gemidos inúteis
Fatigar-te a paciência.