Marquesa de Alorna
(Imitada da ode 21ª do livro I de Horácio:)
Quis Desiderio sit pudor, etc.
Ano de 1813
Que limite porei à dor, ao luto
Com que tão caro objeto chorar devo?
Ordena o canto, lúgubre Melpómene,
Filha do Deus dos Versos!
Tu, que teu Pai dotou de voz canora,
Unida à lira harmónica, suspira!
Perpétuo sono oprime o heroico Alorna,
Triunfa dele a morte!
Súplica branda não revoca o Fado,
Quando uma vez, com a vara inexorável
De Mercúrio, ao rebanho tenebroso
Agrega qualquer alma.
Honra, justiça, irmãs incorruptíveis
Da boa fé, da nítida verdade,
Onde achareis alguém igual de Alorna?...
A terra não tem tanto.
Muitas lágrimas esta morte custa!
Nenhumas tão amargas como as minhas.
Em vão devota os Deuses importuno;
Nem têm crédito as preces.
Os Deuses por um tempo nos emprestam
Sobre a terra o que é digno só do Olimpo;
Nas eternas moradas se recolhe,
Desampara os humanos.
Se nas selvas, com cítara suave,
Eu, qual trácico Orfeu, cantar soubera,
Nem assim voltaria o sangue, a vida
À sombra vã que foge.
Destino fero!... Mas a paciência
Aligeira os pesares, os desastres
Que não pode vencer força nem arte,
Que a razão não corrige.