Marquesa de Alorna

Pela morte do meu irmão o Marquês de Alorna, D. Pedro de Almeida

(Imitada da ode 21ª do livro I de Horácio:)

Quis Desiderio sit pudor, etc.

Ano de 1813

 

Que limite porei à dor, ao luto

Com que tão caro objeto chorar devo?

Ordena o canto, lúgubre Melpómene,

Filha do Deus dos Versos!

 

Tu, que teu Pai dotou de voz canora,

Unida à lira harmónica, suspira!

Perpétuo sono oprime o heroico Alorna,

Triunfa dele a morte!

 

Súplica branda não revoca o Fado,

Quando uma vez, com a vara inexorável

De Mercúrio, ao rebanho tenebroso

Agrega qualquer alma.

 

Honra, justiça, irmãs incorruptíveis

Da boa fé, da nítida verdade,

Onde achareis alguém igual de Alorna?...

A terra não tem tanto.

 

Muitas lágrimas esta morte custa!

Nenhumas tão amargas como as minhas.

Em vão devota os Deuses importuno;

Nem têm crédito as preces.

 

Os Deuses por um tempo nos emprestam

Sobre a terra o que é digno só do Olimpo;

Nas eternas moradas se recolhe,

Desampara os humanos.

 

Se nas selvas, com cítara suave,

Eu, qual trácico Orfeu, cantar soubera,

Nem assim voltaria o sangue, a vida

À sombra vã que foge.

 

Destino fero!... Mas a paciência

Aligeira os pesares, os desastres

Que não pode vencer força nem arte,

Que a razão não corrige.