Marquesa de Alorna
Infeliz noite, só te não pareces,
Na agitação, com a morte taciturna!
Morrer é nada; é mais o que padeço
Nesta noite funesta.
Que multidão de mágoas me repete,
Aterrada, a penosa fantasia!
Como com ígneos traços me debuxa
O quadro dos meus males!...
Esposo, filhos, pais, irmãos que amava,
Que nunca mais verei, com que dureza
Mos mostra a corrupção devoradora
No sepulcro fechados!...
Do parentesco os vínculos suaves,
Os laços deleitosos da amizade,
Em pedaços desfeitos, ou trocados
Pela fria indiferença!
O bando dos prazeres carinhosos,
Por acervos pesares suplantado,
Expulsa-o dos meus lares a Tristeza,
Assusta-o minha Sorte.
Aplacai-vos, ó Fúrias, ó Saudades!
Já não cabeis no peito... Ou crescei tanto
Que se apague este sopro que alimenta
A minha infeliz vida!
Dos passados instantes mil imagens
Vem funestar de novo o pensamento;
E a dor, que o tempo noutros aniquila,
Em mim se perpétua.
Se ao menos mais ditosa a Pátria visse!
Se as luzes, se as virtudes a adornassem!
Grata o suspiro extremo em paz soltara,
Os Céus o acolheriam.
Pátria! nome sagrado! Com que fúria
Me persegue um cruel pressentimento!...
Quão inúteis lições lhe deu a Sorte
– Terremotos, revoltas!...
Sorveu a terra as torres, os palácios,
Sumiu a morte as gentes a milhares:
Desta lição tão áspera os preceitos
Anulou o descuido.
Das ideias erradas o fermento
Produziu nova série de infortúnios:
Fomos Francos, Hibérnios, só não fomos
Sensatos Portugueses.
Ah! se não renascer com a Pátria a glória,
Se a Ciência e a Justiça ainda dormitam,
Se a Moral não desperta, a Indústria acorda,
– Ao Nada caminhamos!