Marquesa de Alorna

Insónia em a noite de 8 de Outubro de 1824

Infeliz noite, só te não pareces,

Na agitação, com a morte taciturna!

Morrer é nada; é mais o que padeço

Nesta noite funesta.

 

Que multidão de mágoas me repete,

Aterrada, a penosa fantasia!

Como com ígneos traços me debuxa

O quadro dos meus males!...

 

Esposo, filhos, pais, irmãos que amava,

Que nunca mais verei, com que dureza

Mos mostra a corrupção devoradora

No sepulcro fechados!...

 

Do parentesco os vínculos suaves,

Os laços deleitosos da amizade,

Em pedaços desfeitos, ou trocados

Pela fria indiferença!

 

O bando dos prazeres carinhosos,

Por acervos pesares suplantado,

Expulsa-o dos meus lares a Tristeza,

Assusta-o minha Sorte.

 

Aplacai-vos, ó Fúrias, ó Saudades!

Já não cabeis no peito... Ou crescei tanto

Que se apague este sopro que alimenta

A minha infeliz vida!

 

Dos passados instantes mil imagens

Vem funestar de novo o pensamento;

E a dor, que o tempo noutros aniquila,

Em mim se perpétua.

 

Se ao menos mais ditosa a Pátria visse!

Se as luzes, se as virtudes a adornassem!

Grata o suspiro extremo em paz soltara,

Os Céus o acolheriam.

 

Pátria! nome sagrado! Com que fúria

Me persegue um cruel pressentimento!...

Quão inúteis lições lhe deu a Sorte

– Terremotos, revoltas!...

 

Sorveu a terra as torres, os palácios,

Sumiu a morte as gentes a milhares:

Desta lição tão áspera os preceitos

Anulou o descuido.

 

Das ideias erradas o fermento

Produziu nova série de infortúnios:

Fomos Francos, Hibérnios, só não fomos

Sensatos Portugueses.

 

Ah! se não renascer com a Pátria a glória,

Se a Ciência e a Justiça ainda dormitam,

Se a Moral não desperta, a Indústria acorda,

– Ao Nada caminhamos!