Júlio Dinis

TERESA

(A minha sobrinha Ana C. Gomes Coelho)

 

Era uma criança loura

Quando a conheci pequena;

Mais branca do que a açucena

E pronta sempre a chorar.

Havia naqueles olhos

De um certo azul esvaído,

Não sei que oculto sentido

Que me fazia pensar.

 

Quantas vezes, ao pé dela,

Correndo-lhe a mão nas trancas,

Eu lhe disse: «Tu não danças,

Como vês dançar as mais?»

Ela olhava-me e sorria,

Sorria, mas suspirava,

E ainda mais triste ficava,

Como nem imaginais.

 

Meu Deus, que criança aquela!

Que tão precoce tristeza!

Dizem-lhe um dia: «Teresa

Sabes? A tua mãe morreu.»

Fez-se pálida de morte...

E, levando as mãos ao seio,

Ia a falar, mas, no meio,

Reprimiu-se e emudeceu.

 

E desde então nunca a viram

Mais com as suas companheiras;

Ficava-se horas inteiras

À sombra do laranjal.

Surpreendiam-na sozinha

Com os olhos fitos no espaço

E esfolhando no regaço

As rosas do seu rosal.

 

As brisas, gemendo tristes

Por entre a verde folhagem,

Segredavam-lhe a linguagem

Sonora da solidão.

Essas mil vozes do campo,

Todas ela compreendia,

Que fadado para poesia

Fora aquele coração.

 

Ai, que infância tão de gelo!

Que madrugada da vida!

Ai, pobre alma estremecida

Pelas saudades da mãe!

Quantas vezes, alta noite,

A triste julgava vê-la

Em cada fúlgida estrela

Que o firmamento contém!

 

Um dia, ao cair da tarde,

E de uma tarde de Outono,

Acordou de um brando sono

E pôs-se a rir para mim.

«Já sorris? És salva, filha,

Enfim!» E a beijei contente.

Olhando-me ternamente

Ela repetiu: «Enfim!»

 

Enfim!... mas que triste acento

Nessa palavra vertera!

Foi como que se dissera

À vida um último adeus.

Era como um grito d'alma,

Rompendo a prisão que a encerra,

E partindo-se da Terra

Pra fundir-se nos Céus.

 

Iluminavam-lhe as faces

Os raios de estranho fogo.

Ao vê-la compreendi logo

Tudo o que se ia passar.

«Teresa, que tens? Responde.»

Disse, cingindo-a ao meu peito;

E ao levantá-la do leito

Assustou-me aquele olhar.

 

As faces são-lhe de neve

Na frialdade e na alvura.

O sorrir que a transfigura

Dá-lhe um todo divinal.

Por sobre as cândidas roupas

Caem-lhe as trancas douradas,

E nas pálpebras cerradas

Se extingue o alento vital.

 

Nos lábios já descorados

Que meiga expressão escrita!

O seio já não palpita...

Lânguida a cara lhe cai...

Uma lágrima saudosa

Pelas faces lhe resvala,

E a vida inteira se exala

Num sumido e extremo ai.

 

Era uma criança loura

Quando a vi na sepultura,

Da açucena tinha a alvura,

Teve seu curto durar.

Daqueles olhos serenos

De um certo azul esvaído,

Ai, fatal era o sentido

Que me fazia pensar.