Júlio Dinis

AS ANDORINHAS

Fugi, andorinhas; em mais longes plagas

Buscai outras praias, florestas e o céu;

Que é triste o bramido que soltam as vagas

E um vento pressago nos bosques gemeu.

 

Fugi, namoradas das flores e estrelas,

Olhai: estes campos sem flores estão,

E cedo os espaços, à voz das procelas,

Sinistros, cerrados, sem luz ficarão.

 

Fugi, apressai-vos, alados viajantes,

Em bandos ligeiros os mares cruzai.

Por outros países, por selvas distantes

Mais flores e aromas, mais luz procurai.

 

Deixai estes montes de neve coroados,

As selvas despidas, e as folhas sem cor,

As grossas torrentes e os troncos quebrados

E os vales cobertos de denso vapor.

 

E quando, mais tarde, na verde campina,

As rosas voltarem com viço a florir,

E as serras, despidas da intensa neblina,

Virentes, formosas, se virem surgir;

 

E quando deslizem na praia arenosa

Mais lentas, mais brandas, as vagas do mar,

E das laranjeiras de copa frondosa

Caírem as flores do chão do pomar;

 

E quando fugirem, informes, pesadas,

As nuvens sombrias que se erguem do sul.

Correndo dispersas e em flocos rasgadas,

Nos plainos imensos de um límpido azul:

 

Voltai; nova quadra de amores vos chama;

Dos climas distantes para estes parti;

Então tudo é vida, já tudo se inflama,

Há luz, há perfumes, faltais vós aqui!

 

Voltai, que de novo serão florescentes

As selvas, os prados, o monte, os vergéis;

Quietas as brisas, as águas dormentes

Nos lagos tranquilos de novo vereis.

 

Só eu, que vos sigo com vistas saudosas

Ao vosso desterro, dos mares além,

Já quando no prado brotarem as rosas,

Talvez não reviva com as rosas também.

 

Ai, não, não revivo, que o vento do Outono

Gemendo angustiado nas brenhas do val,

Convida-me ao leito do plácido sono,

E as nénias entoa do meu funeral.

 

Eu morro! Na chama do Sol que declina

Bem sinto o presságio de um próximo fim.

Se um dia voltardes à vossa colina,

Ó doces amigas! lembrai-vos de mim;

 

Daquele que, triste, vagando no olmedo,

O adeus da partida vos veio dizer.

Quem sabe das campas o oculto segredo?

Talvez vossos cantos eu possa entender.

 

Talvez que, ao ouvir-vos a queixa sentida

Quebrando das noites a triste mudez,

À sombra dos cedros da escura avenida

Acorde, a escutar-vos ainda uma vez.

 

Nota do Autor. — Faz parte do romance «Uma flor entre o gelo» publicado

Serões da Província, em 1870.