António Pereira Nobre

Saudade

Saudade, saudade! palavra tão triste,

E ouvi-la faz bem: Meu caro Garrett, tu

bem na sentiste,

Melhor que ninguém!

 

Saudades da virgem de ao pé do Mondego,

Saudades de tudo: Ouvi-las caindo da

boca dum Cego,

Dos olhos dum Mudo!

 

Saudades de Aquela que, cheia de linhas,

De agulha e dedal, Eu vejo bordando

Galeões e andorinhas

No seu enxoval.

 

Saudades! e canta, na Torre deu a hora

Da sua novena: Olhai-a! dá

ares de Nossa Senhora,

Quando era pequena.

 

Saudades, saudades! E ouvide que canta

(E sempre a bordar) Que linda!

Quem canta seus males espanta

E eu vou-me a cantar…

 

«Virgílio é estudante, levou-o o seu fado

A terras de França! Mais leve que

espuma, não tenho pecado,

Que o diga a balança.»

 

«Separam-me dele cem rios, cem pontes,

Mas isso que faz? Atrás desses montes,

ainda há outros montes,

E ainda outros, atrás!»

 

«Não tarda que volte por montes e praias,

Formado que esteja; E iremos

juntinhos, ah tem-te-não-caias!

Casar-nos à Igreja.»

 

«Virgílio é um anjo, não tem um defeito,

É altinho como eu; Os lábios com

lábios, o peito com peito…

Ah, Virgem do Céu!»

 

«O Amor, ai que enigma! consolo no Tédio,

Estrela do Norte! O Amor é doença,

que tem por remédio

Um beijo, ou a Morte.»

 

«Às vezes, eu quero dizer-lhe que o amo,

Mas, vou-lho a dizer, Irene não

fala (Irene me chamo)

E fica a tremer…»

 

«Quando ia ao postigo falar-lhe, tão cedo,

(Tu, Lua, bem viste) Ai que olhos

aqueles ! metiam-me medo….

E sempre tão triste!»

 

«Perfil de Teresa, velado na capa,

Lá passa por mim: Ó noites da

Estrada, tardinhas da Lapa,

Choupal! e Jardim!»

 

«Cabelos caídos, a cara de cera,

Os olhos ao fundo! E a voz de Virgílio,

docinha que ela era,

Não é deste Mundo!»

 

«Saudades, saudades! Que valem as rezas,

Que serve pedir! No altar

continuam as velas acesas,

Mas ele sem vir!»

 

«Já choupos nasceram, já choupos cresceram,

Estou tão crescida! Já choupos

morreram, já outros nasceram…

Como é curta a Vida!»

 

«Ó rio de amores, que vens da Portela

Pro mar do Senhor, Ah vê se na

costa se avista uma vela,

Se vem o Vapor…»

 

«Meu santo Mondego, que voas e corres,

Não tenhas vagares! Mondego dos

Choupos, Mondego das Torres,

Mondego dos Mares!»

 

«Mas ai ! o Mondego (Senhora da Graça,

Sou tão infeliz!) Já foi e já volta,

lá passa que passa,

E nada me diz…»