Júlio Dinis

TERÇA-FEIRA

I

 

Rompera a manhã sombria,

Destas que fazem tristeza;

Em perfeita calmaria

Repousava a natureza.

 

Repousava. As ondas mansas

Vinham quebrar-se na areia.

Que mar tanto de esperanças!

Que enganadora sereia!

 

O arrais, correndo os palheiros,

«Ao mar!» grita. «ao mar, aos remos !»

«Para as lanchas, companheiros;

Grande safra hoje teremos.»

 

E a pobre gente da costa,

Essa raça destemida,

Que a morte sem medo arrosta,

Num momento é toda erguida.

 

Ei-los na praia.

 

Cantando

Se dão à tarefa santa,

Que nesse arrojado bando

Quem mais trabalha, mais canta.

 

São todos? Todos não. Falta

Da companha o mais valente!

Esta nova sobressalta

O peito daquela gente.

 

«Partir sem ele! Por Cristo,

Que a primeira vez seria.

Em qualquer lance imprevisto

Quem tanto nos valeria?»

 

Tudo pára, tudo hesita,

Mãos nos remos, mão no leme;

Que o seio a muitos palpita,

Que a muitos a mão já treme.