Júlio Dinis

O TEU PENSAMENTO

Onde vai o teu pensamento

Quando, os olhos elevando,

Segues das aves ligeiras

Esse harmonioso bando?

 

Que te dizem os gorjeios

Dessas pobres foragidas,

Que vão procurar ao longe

Outras selvas mais floridas?

 

Acaso temes, como elas,

As nuvens negras, pesadas,

E os ventos que descem rápidos

Das altas serras nevadas?

 

Acaso invejas as asas

Desses plumosos viajantes?

Acaso aspiras à vida

Noutros climas mais distantes?

 

Não, querida, não receies

Do Inverno os duros rigores;

Quando do Sol falta a chama

Brilha a chama dos amores.

 

Não são para nós mais lúcidas

As noites que o próprio dia?

Que onde a luz do céu falece,

A paixão é que alumia.

 

E o gelo, que as pobres aves

Na relva prostra sem vida,

Fundir-se-á ao fogo ardente

Da nossa paixão, querida.

 

18 de Outubro de 1862.