Marquesa de Alorna

Despotismo

Pensamentos, nascei, que Apolo o manda!

Atrevidos nascei, em liberdade!

Quando a mão execranda

Do Poder ou da fera atrocidade,

Vos queira comprimir o voo altivo,

Soltos voai, impávidos rompendo

O véu em que a mentira

Quere simuladamente ir-se envolvendo!

 

Contra a luz da justiça, tremulando,

Assustados os vícios se arremessam,

A máscara rasgando;

Com vacilante pé, coxos, tropeçam

Ante o gesto brilhante da verdade,

E vão bater com as formas espantosas

Nos escolhos medonhos

Que as Fúrias acarretam, cavilosas.

 

Levantai-vos, clamores, do meu peito!

Não peses, mão, com a força das cadeias!

É vergonhoso efeito

Do Despotismo, limitar ideias;

Os sustos pusilânimes nasceram

No seio deste monstro assaz fecundo;

Dele, ai de nós! derivam

Os males que hoje inundam todo o mundo.

 

Como te pintará meu verso triste?

Despotismo cruel, tua face vejo!...

Com Jove te mediste,

Altivo levantando a voz sem pejo,

Antropófago cru, lavado em sangue,

Monstro sem lei, que as leis todas despreza,

E arrasta sem vergonha

O código da sábia Natureza.

 

Tu, enérgicas almas abatendo,

Em lugar da virtude generosa,

Nelas foste acendendo

Aduladora chama melindrosa.

Do vil receio os corações dominas;

Decorado dos trajes da Prudência,

E espíritos arrastras

Ante as aras profanas da indecência.

 

O Fanatismo segue-te choroso,

Cinge a corda, o cilício não despreza;

Mas punhal sanguinoso

Esconde para a vítima indefesa;

Levanta os olhos para o Céu que argúe

Com brandos sons, com vozes simuladas;

As entranhas lacera,

E a fraude guia às mentes subjugadas.

 

Solta, ó Jove, os teus raios sobre o impio!

Cibele antiga, traga este tirano!

Surge, ó severo brio!

Virtude! surge, e vence o nosso dano!

Se uma vítima falta ao Despotismo,

Lília(*) oferece-se aos fados tenebrosos;

Farte em mim seus furores,

E os mais homens, enfim, sejam ditosos.