Marquesa de Alorna

A Tirce

Fugiste dos meus olhos, doce amiga!

No sítio acerbo, onde o silêncio mora,

Onde a saudade e a dor se não mitiga,

Desconsolada Lília pena e chora.

 

Sem paz e sem conforto desfaleço.

O prestígio das sombras que abraçamos

Na dura lei de ausência reconheço,

Lei que assaz, cara Tirce, não choramos.

 

Lília, Lília fiel, que amor receia,

Que após outra mais firme divindade,

Julga, pela delícia que a recreia,

Pequeno o coração para a amizade;

 

Como pode perder-te?.., qual constância

Pode fazer que sofra com acerto

A incerteza, a mudez de uma distância,

E o próprio coração, que está deserto?...

 

Os mesmos sentimentos que ele cria

Seguem-te, amiga; eu sofro em solidão:

E à maneira que Tirce se desvia,

O alívio desampara o coração.

 

A dor que hoje me rasga o peito aflito

Ë quem fere também a fraca lira;

E os frouxos sons, que terna te repito,

São menos sons do que ais de quem suspira.

 

Mas tu não ouves, que talvez perdidos,

Como os raios da luz nas cavidades,

Não refletem meus ais, enfraquecidos

De bater peste vale de saudades.

 

Escutam-me estas penhas animadas,

Que as expressões do brando sentimento,

Como sonhos de enferma reputadas,

Insultam, por dobrar o meu tormento.

 

Aqui a seva mão do Fanatismo

Serve as leis execrandas do meu fado;

Aqui geme o legitimo heroísmo,

De uma falsa razão atormentado.

 

A amizade não é um fogo puro

Que duas almas acordes ilumina;

São precauções prudentes do futuro,

Envoltas em presente tirania.

 

Amor, Tirce, não é qual o tu sentes,

Doce clamor da sábia natureza;

Ë um rapaz que flechas traz pendentes

Filho da liberdade e da vileza.

 

Logo apagam a tocha, se a acenderam,

Divisando mil sustos pavorosos

As mesmas almas nobres que deveram

Ornar de Idália os fastos numerosos.

 

Eu não sei que vapor envenenado

Neste sítio de horror também respiro.

Ou deliro... julgando haver pensado?

Ou penso... quando julgo que deliro?

 

Tanto pode essa lei irrevogável

Da fera mãe das Parcas agressoras!

Traz dos males a série inevitável,

Com que alonga, ainda mal, as nossas horas.

 

Dos males me entretenho e me consolo,

Revolvendo as imagens que me cercam;

Nos versos que animar devera Apolo

Lanço a dor; da faz que a graça percam.

 

Não os leias, ó Tirce, se magoam

Teu coração, delícia dos mortais;

Tomem ao vale agreste adonde soam

Há três lustros completos os meus ais.(*)

 

[() Quinze anos e mais de meio de desastres anunciam uma idade avultada. Eu acabo de completar vinte e

quatro anos, de que só oito tive o gosto de viver no seio da minha família. Parece que nesta idade se tem

mais alguns direitos à compaixão das almas sensíveis; e como dos bens da vida este é o único de que tenho

esperanças, julguei necessária esta nota (Nota da Autora).] *