Júlio Dinis
Além, naquela avenida,
De plátanos e salgueiros,
Foi que nos teus beijos primeiros
Bebi a primeira vida.
Sob os copados verdores
Daquela frondosa rua,
Mal vistos da própria Lua,
Falávamos nós de amores.
Todos na nossa procura,
Nós a rirmos escondidos.
Oh! que instantes decorridos!
Oh! que rápida ventura!
«Vai», coseste-me ao partires,
Que estes beijos te deem vida.
Adeus, a infância é volvida!
Luta, e... se não sucumbires...»
E a voz faltava-te em meio;
E eu disse com modo brando:
«Se não sucumbir?...» Chorando
Apertaste-me ao teu seio.
«Volta; e a sentida promessa,
Que nos meus beijos entendeste,
Cumprida será». Disseste:
«Adeus. A luta começa.»
E começava! Ai, por vezes
Me tomou o desalento;
Porém aquele momento
Lembrava-me nos reveses.
Lutei. E ao voltar agora
Com as lembranças do passado,
Diz-me, anjo, se me é dado
Recordar-te ainda essa hora?
1885