Luís Vaz de Camões

Onde acharei lugar tão apartado

Onde acharei lugar tão apartado

E tão isento em tudo da ventura,

Que, não digo eu de humana criatura,

Mas nem de feras seja frequentado?

 

Algum bosque medonho e carregado,

Ou selva solitária, triste e escura,

Sem fonte clara ou plácida verdura,

Enfim, lugar conforme a meu cuidado?

 

Porque ali, nas entranhas dos penedos,

Em vida morto, sepultado em vida,

Me queixe copiosa e livremente;

 

Que, pois a minha pena é sem medida,

Ali triste serei em dias ledos

E dias tristes me farão contente.