Francisco de Sá de Miranda

Carta

Neste tempo quem mal cai,

Mal jaz; e dizem que à luz

Por tempo a verdade sai;

Entretanto põem na cruz

O justo, o ladrão se vai.

 

Da mesma casa real,

Em verdade um grande infante

Tratado às escuras mal,

Bradava por campo igual,

E inimigos claros diante.

 

Enfim vendo a indústria e arte

Quanto que podem, chamou

Um leal conde de parte;

Só com ele se apartou;

Foi viver a melhor parte.

 

Onde tudo é certo e claro,

Onde são sempre umas leis;

Príncipe no mundo raro,

Sobre tanto desamparo

Foram três seus filhos reis.

 

Ó senhor! quantos suores

Passa o corpo e alma em vão

Em poder de envolvedores!

Enfim, batalhas que são?

Salvo desafios mores.

 

Com a mão sobre um ouvido

Ouvia Alexandre as partes,

Como quem tinha entendido,

Por fazer certo o fingido,

Quantas que se buscam dartes.

 

Guardava ele o outro inteiro

A parte não inda ouvida:

Não vai nada em ser primeiro:

Quem muito sabe duvida;

Só Deus é o verdadeiro.

 

A tudo dão novas cores

Com que enleiam os sentidos:

Ah maus! ah enliçadores!

Ante os reis vossos senhores,

Andais com rostos fingidos!