Marquesa de Alorna

A Filinto, a respeito de uma Ode que lhe mandaram fazer, e fez, ao Marquês de Pombal

Quando será, Filinto, que este canto,

Que me inspira benigno o Deus do dia,

Não equivoque a mágoa com meu pranto,

Seja notado só pela alegria?

 

Eu não sei, porque a sorte denegrida

Os futuros envolve em noite espessa.

Vai-me a tristeza dando cabo à vida,

Quere a sorte teimosa que eu padeça.

 

Mente o velho Saturno, se promete

Nas estações diversas dar-me gostos;

A Jano variar-se não compete,

Se volta para mim os quatro rostos.

 

A esperança falaz quando esvoaça,

As verdes roupas ostentando, airosa,

Icárias penas tem, cai por desgraça,

E perece na queda desditosa.

 

Nem o canto das liras alternadas

Que ama Délio, tão pouco o som cadente

De alegre coro de aves namoradas,

Amansam esta mágoa permanente.

 

Das Camenas em vão orno os altares,

Em vão me banho na Castália pura;

Nos olhos se me pintam os pesares,

Nos beiços geme a voz da desventura.

 

Investigando a minha triste história,

Tu mesmo, ó Santo Febo, tu te espantas,

Recomendando às Musas a memória

Quando lustroso cais ou te levantas.

 

Não te esqueça, Filinto, o acerbo caso...

Lateja-me no peito um fogo intenso,

Se esperdiças as joias do Parnaso,

Dando ao tirano o teu sublime incenso.

 

Bem sei que as Musas, quando vão contigo

Em cativeiro, aflitas, algemadas,

É por salvar-te só de extremo perigo

Que sofrem ver-se assim tão degradadas.

 

Porém tu, que és por elas escolhido

Para em verso divino honrar verdades,

Receia que o futuro espavorido

Te acuse de infiel às divindades.

 

A fortuna usurpada é que hoje toma

Direitos que à inocência o Céu concede:

A fraude, a crua fraude afoita doma

Almas a quem justiça a razão pede.

 

Assim, qual nova Euménide, a impostura,

Cruelmente de um fero açoite armada,

Desta terra infeliz toda a ventura

Fez voar, contra os Céus arremessada.

 

A meus olhos se mostra escassamente

Se com eles segui-la ao menos quero;

Bem como velejava em torno à mente

Um vago e lindo sonho ao cego Homero.

 

Os prazeres em bando, fugitivos,

Temem que os siga a mágoa pontiaguda,

Pois da virtude a graça, os atrativos,

Em lutuosa dor a força muda.

 

Contudo a Jove, que almas só conhece,

Que enche o vasto Universo e nos domina,

Apela Alcipe, e nunca desfalece;

A Jove unicamente a fronte inclina.

 

Não são novas as sortes desastradas.

Verei cair sem pasmo o mundo inteiro;

Há longo tempo as terras assoladas

Maldiçoam a espada do guerreiro;

 

Há longo tempo o fanatismo astuto

Assassínios recíprocos prepara;

E sem dó traga o coração corrupto

A verdade que o Céu lhe confiara.

 

Lançando os olhos pelo vasto mundo,

Coberto de catástrofes e danos,

Das próprias penas perco o honor profundo,

E reparto meus ais entre os humanos.

 

Se um Sócrates, que a morte despedaça,

Vejo acabar, sem que a virtude valha,

Ao ler que esgota a venenosa taça,

O mortal gelo sobre mim se espalha.

 

Tremo de raiva quando um vil tirano

Rasga a veia em que pulsa o sangue nobre

De um Séneca infeliz, ou de um Lucano,

Que injusta e prematura morte encobre.

 

Então chagas abertas no meu peito

Se exacerbam com os casos atrasados.

Quantas vezes de Astreia o são direito

Argue a meu favor iníquos fados?

 

Mas se um Vate sublime, revolvendo

Da escura antiguidade os casos vários,

Em Sócrates Anitos convertendo,

Chama a Sejanos, Sólons, Belisários;

 

Que fruto tira o justo quando grita?

A cadeia dos erros dilatada,

Fabricada por homens, necessita

Ser por forças de um Deus despedaçada.