Júlio Dinis
*Epístola ao meu primo José Joaquim Pinto Júnior no dia dos seus anos, 20 de Outubro de
1859. *
Dos orientais jardins da bela aurora
Foge, a lançar-se no cerúleo espaço,
Um grato sol d'Outono. Poucas flores
Lhe oferece a terra já, mas pendem frutos
Das árvores, vergadas sob o peso
Tão grato ao lavrador, que mil riquezas
Ufano estende nas patentes eiras,
Ou em fartos celeiros acumula
Para as guardar do Inverno. Os atavios,
Com que se adorna a quadra, mais semelham
Modestas galas de gentil esposa,
Que, junto ao berço dos seus ternos filhos,
Despiu as louçainhas de solteira,
Os seus trajes garridos de donzela,
Pra quem a vida é só jardim florido,
Belo e viçoso, mas sem frutos inda.
Outono! Fértil quadra — tão querida
Do povo agricultor! se eu possuísse...
….Onde iria
Mendigar expressões para celebrar-vos,
Loiras searas, agradáveis ceifas,
Serões risonhos a que amor preside,
Onde se trocam abraços mil, mil beijos,
A cada milho-rei? Não sei cantar-vos,
Verdes relvas, de orvalho rociadas,
Sussurrantes arroios das campinas,
Copados, odoríferos pomares...
Tudo isto eu escrevia há pouco tempo,
Após ter aspirado os mil perfumes
Do ar do campo, às horas matutinas.
Que alegria na aldeia!... Que fervores
Nos trabalhos agrícolas!... Mas hoje...
Que importa à mole que o vapor impele,
O fim para que trabalha? Reconhece
Uma força maior, e indiferente
Segue o impulso. Sejamos como...
O nosso pátrio Douro que sombrio,
Em torturado leito se revolve,
Nem sempre ao levantar a húmida cara,
Depara montes íngremes e aspérrimos
Que o fazem suspirar, de angustiado.
Aqui e ali, a natureza amena
Com ele se mostrou. Risonhos vales,
Gratas colinas, sinceirais formosos,
Verdes campinas que intercetam veias
De límpido cristal, lhe ornam as margens...
Aí, um brando enleio voluptuoso
Vence o soberbo rio, namorado
Dos verdores que o circundam. Brandamente
Se deixa adormecer, acalentado
Pelas canções que entoa a leve brisa,
Ao som das folhas dos virentes olmos,
Então, ferventes beijos deposita
Nas enfloradas margens, que perfumes
Lhe dão em troca. A cara majestosa
Desenruga, olvidando os seus pesares,
Lascivo, espraia as suas frescas ondas
Em mais ameno leito. Já não geme,
Não brame enfurecido, maldizendo
As enormes montanhas que o oprimem
Em apertado espaço. Canções ternas,
Canções de amor, que só quem ama entende,
Enlevado murmura em brandas notas.
Amo-te sempre, ó Douro, quer em fúrias
Invistas contra as rochas, quer sereno
Deslizes, retratando nas tuas ondas
Os alamos das margens. Ou turvado
Te rojes em lodoso, áspero leito,
Ou em praias extensas desenroles
Tuas ondas mais límpidas, és sempre
O Douro, cuja voz me acalentava
Nos áureos sonos da passada infância.
Mas de novo me acorre o pensamento
Atrás de ideias tristes. E a tal ponto
Que me custa trazê-lo a bom caminho.
Perante o Sol se interpôs uma outra nuvem
E desta vez bem negra. Mas desculpa
Se, quase ao meu pesar, eu fui levado
Na torrente de ideias tão sombrias...
Deixa o país fantástico que habitas
Pra fazer excursões impetuosas
Armado de palavras. Tão difícil
É represar-lhe as fúrias, como peias
Tentar opor às convulsões tremendas
De furioso vulcão. A minha ideia,
A predileta, a que na mente afago,
Que, quando só, vem povoar de imagens
A minha solidão, é a da família.
Prefiro-a à glória, a prazer, a honras!
Peço a Deus, com fervor, nas minhas preces,
Mil vezes, no seu templo, ajoelhado:
— «Senhor, lhe digo, por piedade, ouvi-me!
Povoai-me esta aridez da minha vida,
Como na infância a vi; pelo passado
Conformai meu futuro; já que o homem
Retrogradar não pode no seu caminho.»
A súplica é sincera e Deus piedoso.
Escutada será? Não sei que esperança,
Não sei que frouxa luz, bem frouxa ainda,
Parece divisar no horizonte...
Talvez não creias que, sincero falo
Nestas aspirações do meu futuro?
Ah! Sinceras são elas, podes crer-me.
Assim reais as vira! Os mil prazeres
Que a juventude sequiosa anseia,
De boamente, em holocausto, os dera
A santa paz da vida de família.
Talvez; mas seja embora um sonho apenas,
O sonhar e um bem, se o sonho é grato.
É milagroso bálsamo que sara
As feridas mais cruéis da realidade.
Os frades já lá vão. Esses ao menos
Souberam amenizar a agreste vida,
Estéril de afeições, do homem solteiro,
Desfrutando as delícias da preguiça,
Nas confortáveis celas dos conventos,
Templos só consagrados à mandriice.
Onde nada teria que notasse
O mais importante dos vassalos
Da rainha Vitória. E mais é gente
Que, no que diz respeito à boa vida
E em muita coisa mais, a custo cedem
A qualquer outra, o grau de preferência.
Se entre os teus me não vires, acredita
Que por lá me esvoaça o pensamento
Assistindo ao espetáculo bendito
Dos prazeres de família. E, quando os, brindes
Se elevarem em glória deste dia,
Se não com os do corpo, com os da alma,
Misteriosos sentidos, ouvir podes,
Associar-se ao coro das mais vozes,
Uma voz a saudar-te; é essa a minha!
E disse. Cai o pano. E finda a epístola.