Marquesa de Alorna

QUANDO ME PENHORARAM INJUSTAMENTE TODOS OS MEUS BENS

À Fortuna

 

Fortuna, que me persegues!

Pequeno triunfo teus:

Eu desejo só vontades,

Tu disputas-me vinténs.

Basta-me o que me deixares,

Quando tudo me levares.

 

Basta-me esta alma que tenho,

Constante como os penedos;

Bastam-me as águas das fontes,

E a sombra dos arvoredos;

Ponho-me ao fresco no Estio,

E aquento-me, andando ao frio.

 

Basta-me o Sol, que não podes

Apagar, e à noite a Lua.

Se me tirares a casa,

Irei dormir para a rua.

Sopa, não me dá cuidado,

Tem muitas plantas o prado.

 

Se o teu rigor se estendesse

A tirar-me o meu tinteiro,

Escreveria nos troncos,

Com um prego, este letreiro:

«Vim ao mundo sem camisa,

Ninguém morrendo a precisa.»