Júlio Dinis
Ai não foi sonho, não. Era na infância,
Duas visões queridas
Ao lado do meu berço me sorriam
De uma amorosa auréola cingidas;
Eu sorria também. Vendo-as tão belas,
Por anjos as tomava,
E acordando de um sonho de inocência,
Inda a mais gratos sonhos me entregava.
E repetindo as orações ferventes,
Que à voz da mãe ouvia,
Olhava-as, e julgava que era a elas
Que tão sentidas preces dirigia.
Quando as via, tão jovens e já tristes,
Olhar a mãe chorando,
Eu cismava, e o infortúnio pressentia,
Vago ainda, os meus dias ameaçando.
E o infortúnio chegou. Era uma noite,
E eu ainda infante
Despertei aos gemidos dolorosos
Das órfãs junto à mãe agonizante!
Transportaram-me ao leito aonde a triste
Lutara na agonia,
Era tarde! A primeira vez na vida,
Ao beijá-la, as suas bênçãos não colhia!
E as lágrimas, tão fluentes na infância
Os meus olhos não banhavam!
Então senti que os dias de ventura
Com ela para sempre me deixavam.
Depois os mesmos anjos, que na infância
No berço me sorriam,
Em vez das vestes cândidas de outrora,
Agora negras túnicas cingiam.
Nunca mais como a flor na Primavera
Eu as vi radiantes;
Mas sim como no Outono ela se ostenta,
Pendendo as alvas pétalas fragrantes.
Pobres flores! tão cedo sem abrigo,
Dia a dia enlanguescem
Como as que adornam virginais capelas,
E ao fim de um baile pelo chão fenecem.
Como cândidas pombas surpreendidas
Por furiosa tormenta,
Voam amedrontadas a acolher-se
Junto à mãe que no seio as acalenta,
Assim elas também amedrontadas
Das tormentas da vida
Voam para o Céu, e no materno seio
Procuram contra elas fiel guarida.
Um dia eu vi-me só! Junto ao meu berço
Os anjos não sorriam,
Nem sequer suas lágrimas saudosas
Uma a uma nas faces me caíam.
Passaram tempos, e da infância aos dias
Seguiu-se uma outra idade;
Mas nem o tempo, nem paixões mais vivas
Me extinguiram a imagem da saudade.
Ainda as vejo a ambas, quando às vezes
Em sonhadas delicias,
Recordo o tempo da passada infância,
Recordo seu amor, suas carícias.
Outras vezes, mais vago o pensamento,
Num só anjo as confunde;
E então adoro essa visão querida,
Que na alma ignotas sensações me infunde.
Se a imagem delas é como o crepúsculo
De um dia já passado,
A nova imagem será ainda aurora
De um dia ardentemente desejado?
Meu Deus! a flor dos campos também murcha
Vive um momento apenas;
Mas depois nova quadra veste os prados
De outro manto de rosas e açucenas.
Também as flores de infantil idade
Eu vi cair sem vida:
Deixa que a nova quadra dos vinte anos
Se adorne de uma túnica florida.