Francisco de Sá de Miranda

Soneto XX.

1. O sol é grande, caem com calma as aves

Em tal sazão que soía de ser fria.

Esta agua que cai de alto acordar me hia

De sono não, mas de cuidados graves.

 

2. Oh cousas todas vãs, todas mudaveis,

Qual é o coração que em vos confia?

E passa um dia assi, passa outro dia,

Incertos muito mais que ó vento as naves?

 

3. Eu vira ja aquí sombras, vira flores,

10Eu vira fruita ja, verde e madura;

Ensordecía o cantar dos ruiseñores!

 

4. Agora tudo é seco e de mistura:

Tambem mudando me eu, fiz outras côres.

E tudo o mais renova: isto é sem cura.