Júlio Dinis
Nos toscos degraus da porta
De igreja rústica e antiga,
Velha trêmula mendiga,
Implorava compaixão.
Quase um século contado
De atribulada existência,
Ei-la, enferma e na indigência,
Que à piedade estende a mão.
Duas crianças brincavam
A distância na alameda;
Uma trajada de seda,
De outra humilde era o trajar.
Uma era rica, outra pobre;
Ambas louras e formosas;
Nas faces a cor das rosas,
Nos olhos o azul do ar.
A rica ao deixar os jogos,
Vencida pelo cansaço,
Viu a mendiga, e ao regaço
Uma esmola lhe lançou;
Ela recebe-a, e a criança
Que a socorre compassiva,
Em prece fervente e viva
Aos anjos encomendou.
De um ligeiro sentimento
De vaidade possuída,
A criança mal vestida
Disse a do rico trajar:
— «O prazer de dar esmolas
A ti e aos teus não é dado;
Pobre como és, coitado!
Aos pobres o que hás de dar?»
Então a criança pobre,
Sem mais sombra de desgosto,
Tendo o sorriso no rosto,
Da igreja se aproximou;
E após, serena, em silêncio,
Ao chegar junto da velha,
Descobrindo-se, ajoelha
E a magra mão lhe beijou,
E a mendiga, alvoroçada,
Ao colo os braços lhe lança,
E beija a pobre criança,
Chorando de comoção.
É assim que a caridade
Do pobre ao pobre consola.
Nem só da mão sai a esmola,
Sai também do coração.
Janeiro de 1869