Júlio Dinis

A VIDA

A alvorada foi risonha;

Ergueste-te como o dia,

Eu fiz, naquela alvorada,

Uma alegre profecia.

 

Inda radiava fulgente

Vénus, a saudosa estrela,

Já tu ornavas as trancas

E cantavas à janela.

 

E dos laranjais vizinhos

Os rouxinóis acordados

Respondiam-te com trinos

Da tua voz namorados.

 

Dos virentes jasmineiros,

Que a Primavera enflorava,

Vinha cheio de perfumes

O vento que te beijava.

 

Quem dissera então ao ver-te

Nessa risonha alvorada,

Que a noite, estrela cadente,

Serias inanimada?

 

1870.