Marquesa de Alorna
Voai, votos sinceros, votos puros,
Suspiros da minha alma, meus gemidos,
Cercai esses sepulcros horrorosos,
Movei as tristes cinzas!
Ossos mirrados, descarnados membros,
Sombras da morte, lívidos semblantes,
Manes errantes sobre tristes bordas,
Escutai meu lamento!
Aonde estais, Supremas Divindades,
Inexoráveis filhas do Destino?...
Sobre altares de rosas consertados
Não faço sacrifícios.
Eu não invoco os Numes saudáveis
Que presidem ao claro nascimento
Do mortal que depois cercam desgostos:
Invoco as feias Parcas.
Sobre os túmulos tristes, que a memória
Só conservam da morte, escolho as aras,
E, misturados cm o vapor dos mortos,
Voam meus ais sentidos.
Pela mãe conduzida, desces, Deusa,
Com passos firmes, inflexível Cloto,
E no fundo da triste natureza
Soa voz poderosa.
Treme o mortal, que nesse rosto pálido
Fixa os olhos, de lágrimas banhados,
E apenas acostuma a fraca vista
Ao teu medonho aspeto.
Já Láquesis ansiosa volta o fuso;
Acumulando dias sobre dias,
Com ímpeto os sepulta tristemente
No acerbo esquecimento.
Treme a terra; as palpitantes almas,
Das bordas do sepulcro espavoridas,
Quase, de entre os suspiros, que se arrancam
Já dos humanos laços.
As três irmãs, as voadoras Horas,
Contemporâneas do antigo Tempo,
Incansáveis nos ares se suspendem,
De susto estremecendo.
Parecem os momentos preciosos,
A leve ocasião medrosa voa,
E já da luz aos raios vão fugindo
O sono e a noite densa.
Num escolho quebre as ondas o mar negro,
Rasgue os ares o raio fuzilante,
Rebente em tempestade a nuvem escura,
Que o Sábio não vacila.
Entre montes de fumo e negro lume,
Nos ares vibra o gesto descorado
De Átropos... e o pálido desmaio
Cobre o mortal semblante.
Sopre o vento com fúria desmedida,
Bóreas arranque os troncos na espessura,
Em granizos e raios se desfaça
A nuvem tempestuosa.
Turbe-se o ar, vacile o pavimento,
Ao fundo corra a nau, os bens se percam,
Que na fatal boceta ainda nos resta
O raio de esperança.
Mas se tu desces, Deusa, dos teus golpes
Quem poderá fugir? Qual gruta escura,
Qual segredo da terra nos esconde
Dessa fatal tesoura?
Entre o prazer, nas mesas delicadas,
De mirtos florescentes adornados,
Cuidamos de esconder com a alegria
Da vida o ténue fio.
Cercados dos Amores, mil falanges
A tua fúria opomos, defendendo-o;
Resguardam-no mil bens acautelados,
Ó Céus! que inutilmente!...
Nos Cíprios bosques, nos suaves leitos,
No seio do prazer, somente um sopro
O levanta, e tu, logo apercebida,
O fero golpe vibras.
Ali colhes da moribunda boca
O derradeiro, o último suspiro;
Ali te fartas, sim, de sangue humano,
Já meio congelado.
E logo, sacudindo as asas, largas
Sobre o terreno o mísero despojo,
Pálido, frio, pasto em poucas horas
Da corrupção faminta.
Tu, suprema Deidade, tu me escuta!
A ti voam meus votos; não te peço
Que respeites meus dias; estou cansada
De lutar com o desgosto.
Porém escolhe o instante em que eu respire
Tranquilamente, unida com a virtude.
Cloto! Deixa que a paz sustente um pouco
Esse fero instrumento!
E tu, Láquesis, tu, Deusa inumana,
Que imerges na amargura o fio triste
Dos meus anos; consente que o que resta
Doure a tranquilidade!
Se aplacar-vos consigo, ó Deusas, voto
Equivocar meu último gemido
Com um sorriso brando, a voz extrema
Ser bendizendo as Parcas.