Júlio Dinis

HINO AO TABACO

No centro dos círculos

De nuvens de fumo,

Um deus me presumo,

Um deus sobre o altar!

Nem doutros turíbulos

Me apraz tanto o incenso

Como o deste imenso

Cachimbo exemplar!

 

Em divas esplêndidos,

Cruzadas as pernas,

Fuma, horas eternas.

O ardente sultão

Subindo-lhe ao cérebro

O mágico aroma,

Esquece Mafoma,

Houris e Alcorão.

 

Longe, oh! longe o ópio,

Que os sonhos deleita

Da mísera seita

Dos Theriakis!

Horror ao narcótico

Que vem das papoulas!

E ao que arde em caçoulas

No altar de Caciz!

 

Que a raça gentílica

Das zonas ardentes

Consuma as sementes

Do arábio café.

Despejem-se as chávenas

Da atroz beberagem

Da cor do selvagem

Da adusta Guiné.

 

E a tal folha exótica,

Delícias da China,

Por nossa má sina

Trazida de lá,

Servida em família

Num morno hidro-infuso?...

Anátema ao uso

Das folhas do chá!

 

Nem tu, ó alcoólico

Humor dos lagares,

Terás meus cantares,

Os meus hinos terás,

Embora das ânforas,

Vazado nas taças,

Aos outros tu faças,

A língua loquaz.

 

Cerveja britânica,

De furor espuma?

De coisa nenhuma

Me podes servir.

Quando oiço do lúpulo

Gabarem proezas Às boas inglesas,

Desato-me a rir.

 

Nem venha da cânfora

Pregar maravilhas

O das cigarrilhas

Famoso inventor.

Raspail é cismático

E eu sou ortodoxo

O seu paradoxo

Não me há de ele impor.

 

O meu canto é da América,

País do tabaco,

Perante o qual Baco

O seu cetro partiu.

A Europa, Ásia e África

E a Terra hoje toda

Este herói da moda

De fumo cobriu.

 

Até na Lapónia

Da gente pequena,

Se fuma; e no Sena,

No Tibre e no Pó,

No Volga e no Vístula,

No Tejo e no Douro;

Que imenso tesouro

Se deve a Nicot!

 

Os meus áridos lábios

Mais fumo ainda aspirem;

Que os parvos suspirem

Por beijos aos mil.

Não quero outros ósculos,

Não quero outra amante..

Qual mais doudejante

Que o fumo subtil?

 

Tornadas Vesúvios,

As bocas fumegam

De nuvens que cegam

Vomitam montões.

Fumar! Oh delícias!

Prazer de nababo!

E leve o Diabo

Do mundo as paixões.