Francisco de Sá de Miranda

A Nossa Senhora

III

Virgem, seguro porto e amparo e abrigo

As móres tempestades; ah que tinha

Aos ventos esta vida encommendada

Sem olhar a que parte ia ou vinha,

Vãmente descuidado do perigo,

Surdo aos conselhos, tudo tendo em nada,

Não vos seja em desprezo esta coitada

Alma que ante vós vem,

Por rezões que tem,

De imigos grandes mal ameaçada.

E que eu tão peccador e errado seja,

Vença vossa piedade

Minha maldade grande e assi sobeja.

 

IV

Virgem, do mar estrella, neste lago

E nesta noite um pharo que nos guia,

Para o porto seguro um certo norte;

Quem sem vos atinar, quem poderia

Abrir sómente os olhos, vendo o estrago

Que atraz olhando deixa feito a morte?

Quem proa me daria com que corte

Por tão brava tormenta?

De toda a parte venta,

De toda espanta o tempo feio e forte.

Mas tudo que será? Co’a vossa ajuda

Nevoa que foge ao vento

Que num momento s’alevanta e muda.

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