Marquesa de Alorna

Imitada de Goethe

[()Johann Wolfgang von Goethe, escritor e filósofo alemão] *

 

Como devo, como posso

Mitigar esta paixão,

Este tumulo em que lida

Revoltoso o coração?

 

Como hei de calar os gritos

Que dele saindo vão,

Se são desta dor violenta

Última consolação?

 

Grito, sim, é-me preciso

Dissolvê-la nos meus gritos.

Desculpe Deus meus excessos,

E Márcia, pois são delitos.

 

Freme qual raiva do Inferno,

No peito a dor se revolta;

Da mais elevada chama,

Que é sua origem, se solta.

 

Desta labareda surde

Torrente devoradora,

Cujo incêndio tudo abrasa,

E a mim mesmo me devora.

 

Sede, ó Deus! ó criaturas!

Testemunhas de um tal dano;

Se pode testemunhá-lo,

Sofrê-lo algum ser humano!

 

Bem como em masmorra escura

Geme um preso maniatado,

Que em grilhões de um peso enorme

Tem o corpo carregado;

 

Meu espírito assim luta;

Apalpa em torno, forceja

Por encontrar uma fenda

Onde entre a luz que deseja,

 

Um raio refrigerante

De esperança que o conforte;

Veda a abóbada funesta,

Que romper só pode a morte.

 

De multiformes ideias

Um novo terror o oprime;

Todo o alívio lhe é defeso;

Desejo, esperança, é crime.