Mário de Andrade

O Rebanho

Paulicéia Desvairada

Oh ! minhas alucinações !

Vi os deputados, chapéus altos,

sob o pálio vesperal, feito de mangas-rosas,

sairem de mãos dadas do Congresso. . .

Gomo um possesso num acesso em meus aplausos

aos salvadores do meu estado amado ! . . .

 

Desciam, inteligentes, de mãos dadas,

entre o trepidar dos taxis vascolej antes,

a rua Marechal Deodoro. . .

 

Oh ! minhas alucinações !

Como um possesso num acesso em meus aplausos

aos heróis do meu estado amado !. . .

 

E as esperanças de ver tudo salvo !

Duas mil reformas, très projectos. . .

Emigram os futuros nocturnos, . . .

E verde, verde, verde ! . . .

Oh ! minhas alucinações !

Mas os deputados, chapéus altos,

mudavam-se pouco a pouco em cabras !

Crescem-lhes os cornos, descem-lhes as barbinhas. . .

 

E vi que os chapéus altos do meu estado amado,

com os triângulos de madeira no pescoço,

nos verdes esperanças, sob as franjas de oiro da tarde,

se punham a pastar

rente do palácio do senhor presidente...

Oh ! minhas alucinaçõe !