Marquesa de Alorna

A Filinto

Ano de 1813

Non é ver que sia la morte

Il peggior do tute i mali.

Metastácio

 

 

Fui, como tu, Filinto, arremessada,

Pelas ímprobas mãos da Sorte adversa,

Contra os escolhos que num mar de angústias

Acumula a desgraça.

 

Cercou, longe de mim, a meiga Dafine(*)

As portas da existência; a luz serena

Dos seus olhos celestes apagou-se;

Pereceram as Graças.

[()Minha irmã (Nota da Autora)] *

 

Estranha terra cobre o Luso Turno,(*)

Que esperdiçaram deslembrados Numes,

E a Pátria, que em vaneios despedaça

Santos, fidos Penates.

[() Meu irmão (Nota da Autora).] *

 

A morte sem cessar, com a fouce acerba,

Exornou-me sem dó; fiquei qual tronco

Que os ventos furiosos desfolharam,

Que tisnaram coriscos.

 

Foram-me inúteis délficos tesouros,

Que na infância comigo repartiste;

Escasso lume apenas me arde na alma,

Que este incenso te envia.

 

São, Filinto, relíquias do teu estro

Que me aquecem da lira as dóceis cordas;

São tuas odes mágicas que acordam

A sonolenta Musa.

 

És tu quem me arrebatas, quem me levas

A encarar nas Olímpicas mondas

Com o Pai da heroica tuba e excelsos Vates,

Que emulas ou desbancas.

 

Contigo vejo erguer do vítreo trono

O agastado Neptuno, e me envergonho

Que inertes no estaleiro os lenhos durmam,

Sem atentar na glória.

 

Que Dabul ou Cochim, que tanto sangue

Aos Almeidas custou, farte a cobiça

Do fofo avaro, auri-sedento bruto

Que alheia fama apaga.

 

Mas surge, ó Noite! Plácida refresca,(*)

Com teu sombrio e sossegado aspeto,

A cálida tristeza que me lavra

O ansiado peito!

[() Alusão a uma ode belíssima de Filinto] *

 

Ao Vate ilustre que em teu seio acolhes

Legou Anacreonte a rósea solfa,

Com que Acidália mesma carinhosa

Acalenta Cupido.

 

Versos acesos no amoroso fogo,

Versos que ateiam férvido heroísmo,

Versos que põem a lira a par da tuba,

À fama o recomendam.

 

Ditosos Coridon, Elpino, Olindo!

Já sobre vós não pode nada a morte!

Triunfantes ireis, calcando as eras,

Sobre as asas do Vate.

 

Mas Alcipe, a quem pôs nas mãos o plectro!...

Duas vezes à morte submetida,

Cessará de viver... É pouco... é nada...

Mas se esquece a Filinto!.