Luís Vaz de Camões

Que poderei do mundo já querer

Que poderei do mundo já querer,

que, naquilo em que pus tamanho amor,

não vi senão desgosto e desamor,

e morte, enfim; que mais não pude ver!

 

Pois vida me não farto de viver,

pois já sei que não mata grande dor,

se cousa há que mágoa dê maior,

eu a verei; que tudo posso ver,

 

A morte, a meu pesar, me assegurou

de quanto mal me vinha; já perdi

o que perder o medo me ensinou.

 

Na vida desamor somente vi,

na morte a grande dor que me ficou;

parece que para isto só nasci.