Gil Vicente

Saudade das tabernas animadas

Pranto de Maria Parda

Ó Rua da Ferraria,

Onde as portas erão mayas,

Como estás cheia de guaias,

Com tanta louça vazia!

Ja m'a mim aconteceo

Na manhan que Deos naceo,

Á hora do nacimento,

Beber alli hum de cento,

Que nunca mais pareceo.

Rua de Cata-que-farás,

Que farei e que farás!

Quando vos vi taes, chorei,

E tornei-me por detras.

Que foi do vosso bom vinho,

E tanto ramo de pinho,

Laranja, papel e cana,

Onde bebemos Joanna

E eu cento e hum cinquinho.

Ó tavernas da Ribeira,

Não vos verá a vós ninguem

Mosquitos, o verão que vem,

Porque sereis areeira.

Triste, que será de mi!

Que ma ora vos eu vi!

Que ma ora me vós vistes!

Que ma ora me paristes,

Mãe da filha do ruim!

Quem vio nunca toda Alfama

Com quatro ramos cagados,

Os tornos todos quebrados!

Ó bicos da minha mama!

Bem alli ó Sancto Esprito

Ia eu sempre dar no fito

N'hum vinho claro rosete.

Oh! meu bem doce palhete,

Quem pudera dar hum grito!

Ó triste Rua dos Fornos,

Que foi da vossa verdura!

Agora rua d'amargura

Vos fez a paixão dos tornos.

Quando eu, rua, per vós vou,

Todolos traques que dou

São suspiros de saudade;

Pera vós ventosidade

Naci toda como estou.

Fui-me ó Poço do chão,

Fui-me á praça dos canos;

Carpi-vos, manas e manos,

Que a dezaseis o dão.

Ó velhas amarguradas,

Que antre tres sete canadas

Sohiamos de beber,

Agora, tristes! remoer

Sete raivas apertadas.

Ó rua da Mouraria,

Quem vos fez matar a sêde

Pela lei de Mafamede

Com a triste d'agua fria?

Ó bebedores irmãos,

Que nos presta ser christãos,

Pois nos Deos tirou o vinho?

Ó anno triste cainho,

Porque nos fazes pagãos?

Os braços trago cansados

De carpir estas queixadas,

As orelhas engelhadas

De me ouvir tantos brados.

Quero-m'ir ás taverneiras,

Taverneiros, medideiras,

Que me dem hua canada,

Sôbre meu rosto fiada,

A pagar la polas eiras.

 

(Pede fiado á Biscaïnha.)

 

Ó Senhora Biscaïnha,

Fiae-me canada e meia,

Ou me dae hua candeia,

Que se vai esta alma minha.

Acudi-me dolorida,

Que trago a madre cahida,

E çarra-se-me o gorgomilo:

Emquanto posso engoli-lo,

Soccorei-me minha vida.

 

BISCAINHA

 

Não dou eu vinho fiado,

Ide vós embora, amiga.

Quereis ora que vos diga?

Não tendes isso aviado.

Dizem lá que não he tempo

De pousar o cu ao vento.

Sangrade-vos, Maria Parda;

Agora tem vez a Guarda

E a raia no avento.