Júlio Dinis
Quem te foi vestir de noiva,
Aos quinze anos mal contados?
Quem cingiu de laranjeira
Os teus cabelos dourados?
Que mão conduziu ao templo
Esses passos vacilantes?
Quem te apagou os sorrisos,
Que tinhas nos lábios dantes?
Pobre inocente criança,
Onde vais assim vestida,
Com as lágrimas nos olhos,
Com a cabeça pendida?
Onde te leva essa gente,
Que junto de ti caminha?
Não sei, não sei que desgraça
O meu coração adivinha.
E tremes, pobre menina?!
Oh! ainda é tempo, recua!
Não sacrifiques tão cedo
A paz da existência tua.
Tu vais vestida de noiva,
E os olhos humedecidos;
Estanca, estanca esse choro
Que te humedece os vestidos.
Eleva a cara graciosa
Coroada de laranjeira,
Que não te caiam as flores
Pelo chão dessa maneira.
Louca, se vais assim triste
Como a vítima dos altares,
Recua, que é tempo ainda,
Treme de não recuares.
Vais mentir dizendo que amas,
Vais mentir dentro do templo,
E o futuro que te espera
Tem mais do que um triste exemplo.
Recusa essa mão traiçoeira
Que te promete venturas,
Vê que numa só palavra
Tua desgraça asseguras.
Quando voltares da igreja,
Morta verás toda a esperança.
É cedo para seres esposa,
Continua a ser criança.
Repara; as tuas amigas
Convidam-te ainda ao brinquedo,
Espanta-as teu véu de noiva,
Ai porque as deixas tão cedo?!
Dorme ainda no teu seio
Um coração de quinze anos;
Respeita-lhe o sono, louca,
Poupa-lhe acres desenganos.
Coração virgem de amores,
Como respondes por ele?
E há uma mão sem piedade
Que a tal abismo te impele?!
Diante do altar sagrado
Não jures o que não sintas:
É Deus que te ouve, repara,
É Deus que te ouve. Não mintas.
Mas caminhas... não hesitas...
Do altar os degraus subiste.
Meu Deus, que gélida festa!
Senhor! que cena tao triste!
Ontem criança, hoje noiva!
Imprudente crueldade
Que se antecipou aos sonhos
Da ridente mocidade!
Se um dia acordar inquieto
O coração, desditosa?
Se o fogo da juventude
Se atear no seio da esposa?
E escutam-se hinos de festa!
E arma-se o templo de galas!
E brilham de luz e flores
Da noiva as faustosas salas.
Soltaste a fatal palavra;
Dissipou-se o último ensejo.
Parece-me um saimento
O teu nupcial cortejo.
Esse vestido de noiva,
Aos quinze anos mal contados,
É um véu negro lançado
Sobre teus sonhos dourados.
1869.