Júlio Dinis
Foi da pátria de Malvina,
Foi dentre aquela neblina
Que ela surgiu.
Pobre anjo! tímida ave!
Entre nós, serena, grave,
Nunca sorriu!
Em vão o sol deste clima
Que no prado a flor anima
Com seu raiar,
A cercava de esplendores:
Eram sempre as mesmas cores,
O mesmo olhar!
A cor da alvura da neve
Que às vezes um rubor leve
Vinha tingir;
O olhar distraído, vago,
O azul do céu como um lago
A refletir.
Sobre os vestidos singelos,
Desatados os cabelos,
Sem uma flor,
Louros, profusos, caíam,
E nas faces refletiam
Dourada cor
Vulto de tanta poesia
Nem de Ossian a fantasia
Imaginou,
Quando dos montes na escarpa
Ao som de inspirada harpa
Os evocou.
Na solidão da devesa
Vinha a delicada inglesa
Flores colher.
Erguida, de manhã cedo
Passeava já no arvoredo
Sozinha, a ler.
Se às vezes, raras, cantava,
Saudosa se lhe soltava
Então a voz
Numa canção das montanhas,
Que impressões fundas, estranhas,
Deixava em nós!
Ao fim das tardes, no Estio,
Ia bordejar no rio
Com seus irmãos.
Sobre as águas debruçada,
Na onda em que era embalada
Banhava as mãos.
E nesses tempos ao vê-la:
«Não vai nuvem de procela
Pelo teu céu!
Para ti sempre jucundo
Te sorrirá este mundo,»
Dizia eu.
Engano! Sob a aparência
De uma plácida existência
Lavra a paixão,
Como sob verdes prados,
Sob outeiros enflorados
Treme um vulcão.
Engano! As águas serenas.
Que uma brisa enruga apenas,
Cedo as vereis
Erguerem-se em altas vagas,
E correrem pelas plagas
Como corcéis.
Se em choro a dor não se exala,
Se o que padece se cala,
Redobra o mal;
E um dia a lava rebenta,
Prorrompe infrene, violenta,
Cruel, fatal!
De uma vez, na Primavera,
Mais cedo ao parque viera
Com sua irmã;
Como as árvores frondosas
Sussurravam tormentosas
Essa manhã!
Ambas de branco vestidas,
Mãos dadas, caras pendidas,
Pálida tez.
Ao som da espessa folhagem
Falavam terna linguagem
De amor talvez.
De amor? Pois naquele seio
Esse fogo atear-se veio
Também por fim
De amor?
E essa alma dormente,
Como as outras, nutre, sente
O amor assim?
Se o sente! Os gelos do norte
Não ferem assim de morte
Os corações;
Dentre as neves islandesas
Rebentam lavas acesas,
Rompem vulcões.
«Laura!» —à irmã disse, chorando,
Com um ar magoado e brando,
Chamando-a a si:
«Parto e... escuta, irmã querida,
Custa-me esta despedida,
Laura, por ti.
«Mas partirei! É forçoso.
Quando ele era poderoso,
Foi que o amei.
E agora, pobre, abatido,
Hei-de dar-lhe em paga o olvido?
Oh! não. — Irei.
«Irei, Laura; se hesitasse,
Se a este dever faltasse,
Dir-me-ias: — Vai.
Bem vês, Laura, é minha escolha;
Tu ficas, pobre irmã... olha
Por nosso pai.
«Consola-o, se o vires triste;
Ontem chorava, bem viste.
Laura, por Deus!
Sê-lhe tu fiel amiga,
Suas saudades mitiga
Com beijos teus.
«Aflijo-o muito. Conheço;
Mas à lei de Deus obedeço,
Que diz: — Irás,
Segue o homem que escolheste:
Pai e mãe e irmãos por este
Tu deixarás.»
E falando assim o pranto
Era nela tanto, tanto,
De fazer dó!
Laura, a irmã, não lhe responde,
No seio a cara lhe esconde
E chora só.
Dias depois, ajoelhando
Junto do pai venerando
Estas irmãs,
Ouviam do triste velho,
Inspirado do Evangelho,
Doutrinas sãs.
Colhendo a bênção que implora,
Dentro em pouco, mar em fora
Serena foi.
Partiu resignada e calma;
Santo ardor lhe inflama a alma,
Alma de herói.
E hoje, ai, hoje por onde erra
Essa filha de Inglaterra?
Quem sabe lá!
Quem na memória a conserva?
Cresce alta no parque a erva
Há tanto já!