Luís Vaz de Camões
Pede o desejo, Dama, que vos veja :
Não entende o que pede ; está enganado.
E este amor tão fino e tão delgado,
Que quem o tem não sabe o que deseja.
Não há cousa, a qual natura seja,
Que não queira perpétuo o seu estado.
Não quer logo o desejo o desejado,
Só por que nunca falta onde sobeja.
Mas este puro afecto em mim se dana :
Que, como a grave pedra tem por arte
O centro desejar da natureza,
Assim meu pensamento, pela parte
Que vai tomar de mim, terrestre e humana,
Foi, Senhora, pedir esta baixeza.