Marquesa de Alorna
Sensíveis Passarinhos, até quando
Nesses brandos gorjeios que formais
Haveis de copiar meus tristes ais?
Hei de viver convosco suspirando?
Convosco falam
Estes gemidos,
Que, enternecidos,
Grutas, penhascos, montes, tudo abalam.
Quanta inveja vos tenho, ternas aves,
Que explicais, nesse canto delicado,
Talvez o mesmo que eu num triste brado,
E fazeis vossas mágoas mais suaves!
Oh! se algum dia
Eu, suspirando,
Tornasse brando
O motivo do mal que me agonia!...
Nos salgueiros, nas frescas bordas de água,
No tosco seio de algum tronco informe,
Asilo a vosso gosto achais conforme,
E eu choro em desamparo a minha mágoa.
Do fado injusto
Choro o delírio,
E o meu martírio
Grava Amor em meu peito com bem custo.
Bem que, aves, fôsseis ninfas engraçadas,
E que o fogo amoroso ou terna história
De vós mesmas conserve só memória,
Nos gestos infelices transformadas,
Cortais libertas,
Gemendo, os ares,
E os meus pesares
Eu choro entre prisões, que, ó Fado, apertas!
Se a filha de Corónis sofre a pena
De ver perdido o gesto encantador,
Por clamorosos ais a mágoa, a dor
Faz ouvir a que Palas a condena.
Ao universo,
Voando, a explica,
Enquanto indica
Somente o que eu padeço um rude verso.
Eu vejo suspender-se a natureza
Aos ais que lá no centro do retiro
Exala Filomela; um só suspiro
Da voz não lhe interrompe a fortaleza.
Nem por ventura
Ressoa a gruta;
Atento a escuta
O bosque todo envolto em noite escura.
O quieto silêncio, a obscuridade,
Que geram mil saudosos pensamentos,
Parece que das aves aos tormentos
Por estímulo servem, de piedade.
Queixo-me em vão,
Pois meus gemidos
Ficam perdidos
Nesta insensível, negra solidão.
Basta, triste Canção, que a noite escura
Já manda recolher aos caros ninhos
Os suspirantes, ternos passarinhos,
E em vão lhes conto a minha desventura.
Quando nascer
A madrugada,
Eu, magoada,
Tornarei o silêncio a interromper.