Marquesa de Alorna
[() Santa Teresa de Ávila ou Teresa de Jesus, freira e escritora espanhola]*
Amor, delícia de alma a Deus unida!
Do mesmo Deus suavíssimo atrativo,
Que o coração liberta e dá motivo
As saudades cruéis, enquanto há vida!
Tal dor causa o saber que só morrendo
De Deus pode gozar quem a Deus ama,
Que me sinto morrer, por ir vivendo.
Quanto custa esta vida dilatada!...
Cuido que a rastros levo duros ferros.
São cárceres meus dias, são desterros,
Do bem, que tanto adoro, separada.
Vou com ânsias de amor desfalecendo;
E sem chegar ao fim, padeço tanto,
Que me sinto morrer, por ir vivendo.
Ai que vida tão dura, tão amarga,
Sem tomar do meu Deus inteira posse!
Se o puro amor em que ardo é sempre doce,
Cansa, aflige a esperança, quando é larga.
Acode-me, Senhor! vai desfazendo
O pesado grilhão que ainda me prende,
Que me sinto morrer, por ir vivendo.
Com a certeza do bem que a morte alcança
Vou sustentando a vida; mas entendo
Que o mísero mortal só vê, morrendo,
Cumpridas as promessas da Esperança.
Responde a meus clamores, vem correndo,
Morte feliz! Não tardes, não vaciles,
Que me sinto morrer, por ir vivendo.
Vida! que és tu? Suplício desumano.
Observa o vivo amor que me devora:
Perdendo-te, a existência então melhora,
E o tempo que me dás é meu tirano.
Encobrindo-me o bem que só pretendo,
Me agitas, despedaças, de tal modo,
Que me sinto morrer, por ir vivendo.
Vida que não acaba, em Deus imersa,
Essa somente é vida verdadeira.
Enquanto não termina esta primeira,
Não se goza destoutra, tão diversa.
Porque, ó vida cruel, me estás detendo,
Se a cada instante expiro e tanto sofro,
Que me sinto morrer, por ir vivendo?
Como retribuirei tanta fineza
A Deus, que vive em mim? É pouco amá-lo;
Devo perder a vida por gozá-lo.
Se não cabe este bem na Natureza,
Foge, importuna Vida; vai cedendo
Às ditas imortais o teu domínio,
Que me sinto morrer, por ir vivendo.
Meu Deus! que dura ausência! que tormento!
Que prolongada morte é minha vida!
Em dúvidas, em riscos submergida,
De terrores cercado o pensamento,
Muito mais do que morte estou sofrendo.
Tem dó de mim, Senhor! Eu mesma o tenho,
Que me sinto morrer, por ir vivendo.
Qual peixe que sai de água, a quem se nega
Ir ao próprio elemento restaurar-se;
Que arqueja, sem poder nunca escapar-se,
E somente acabando é que sossega;
Assim, meu Deus, na terra vou sofrendo:
Suspiro, chamo, arquejo, e tanto tardas,
Que me sinto morrer, por ir vivendo.
Se me dás, generoso, algum alento,
No divino manjar que me sustenta,
Também se dobra a dor e me atormenta
O véu com que te encobre o Sacramento.
Quero ver-te, Senhor, e não te vendo,
Torno a desfalecer; e tanto anelo,
Que me sinto morrer, por ir vivendo.
Porém quando, Senhor, me reanima
A esperança de ver-te e de gozar-te,
Vem um susto cruel por outra parte,
E que posso perder-te então me intima.
Posso, durando mais, ir-te perdendo?...
Que susto! que terror! Meu Deus, piedade!
Que me sinto morrer, por ir vivendo.
Desta vida arriscada me liberta,
Concede-me a existência desejada;
Solta-me, ó Deus! Da terra desligada,
Minha alma com a ventura logo acerta.
Vê que do mundo nada já pretendo,
Que sem ti, ó meu Deus, viver não posso,
Que me sinto morrer, por ir vivendo.
Se são os meus pecados que demoram
Esse ditoso golpe que te peço,
Ao ver esses abismos estremeço,
E meus olhos a vida e morte choram.
Doce Amor da minha alma! vem descendo!
Abre-me o Céu, liberta-me da vida,
Que me sinto morrer, por ir vivendo!