Luís Vaz de Camões

Quando não te Vejo Perco o Siso

Formosura do Céu a nós descida,

Que nenhum coração deixas isento,

Satisfazendo a todo pensamento,

Sem que sejas de algum bem entendida ;

 

Qual língua pode haver tão atrevida,

Que tenha de louvar-te atrevimento,

Pois a parte melhor do entendimento,

No menos que em ti há se vê perdida ?

 

Se em teu valor contemplo a menor parte,

Vendo que abre na terra um paraíso,

Logo o engenho me falta, o espirio míngua.

 

Mas o que mais me impede inda louvar-te,

É que quando te vejo perco a língua,

E quando não te vejo perco o siso.