Gil Vicente
Auto da Feira
Roma
Tam honrados mercadores
nam podem leixar de ter
cousas de grandes primores
e quanto eu houver mister
deveis vós de ter senhores.
Serafim
Sinal é de boa feira
virem a ela as donas tais
e pois vós sois a primeira
queremos ver que feirais
segundo vossa maneira.
Ca se vós a paz quereis
senhora sereis servida
e logo a levareis
a troco de santa vida
mas nam sei se a trazeis.
Porque senhora eu me fundo
que quem tem guerra com Deos
nam pode ter paz c'o mundo
porque tudo vem dos céus
daquele poder profundo.
Roma
A troco das estações
nam fareis algum partido
e a troco de perdões
que é tesouro concedido
pera quaisquer remissões?
Oh vendei-me a paz dos céus
pois tenho o poder na terra.
Serafim
Senhora a quem Deos dá guerra
grande guerra faz a Deos
que é certo que Deos nam erra.
Vede vós que lhe fazeis
vede como o estimais
vede bem se o temeis
atentai com quem lutais
que temo que caireis.
Roma
Assi que a paz nam se dá
a troco de jubileus.
Mercúrio
Ó Roma sempre vi lá
que matas pecados cá
e leixas viver os teus.
Tu nam te corras de mi.
Mas com teu poder facundo
assolves a todo o mundo
e nam te lembras de ti
nem vês que te vás ao fundo.
Roma
Ó Mercúrio valei-me ora
que vejo maus aparelhos.
Mercúrio
Dá-lhe Tempo a essa senhora
o cofre dos meus conselhos
e podes-te ir muito embora.
Um espelho i acharás
que foi da virgem sagrada
co ele te toucarás
porque vives mal toucada
e nam sintes como estás.
E acharás a maneira
como mendes a vida
e nam digas mal da feira
porque tu serás perdida
se nam mudas a carreira.
Nam culpes aos reis do mundo
que tudo te vem de cima
polo que fazes cá em fundo
que ofendendo a causa prima
se resulta o mal segundo.
E também o digo a vós
e a qualquer meu amigo
que nam quer guerra consigo
tenha sempre paz com Deos
e nam temerá perigo.