Júlio Dinis

JUNTO A UMA CAMPA

Que seria de ti, se desfolhada

Não fosses, linda flor, no chão da morte?

Quem pode ler na página cerrada

Do livro do futuro a ignota sorte?

 

Ninguém; e quantas vezes iludidos

Choramos o que é núncio de ventura?

Quantas, na esperança de prazeres mentidos,

Vemos luz onde tudo é noite escura?

 

Que seria de ti? Não sei. Se escuto

A voz do coração, fala de amores.

Mas quem me diz que a dor com que hoje luto

Não findará com o aroma doutras flores?

 

Que me diz que a minha alma, que palpita

Ao recordar-te, ó virgem desditosa,

Não viria ainda um dia a ser precita

Ao fogo da paixão mais poderosa?

 

Quem sabe? Tudo muda: o peito do homem

Como a ondulante face do oceano;

A um volvem as paixões que nos consomem,

A outro as fúrias do vento vário e insano.

 

Tudo muda! e o meu seio não se exime

Da eterna lei que rege este universo:

Bênção ou maldição. Ela se exprime

Sem cessar na existência desde o berço.

 

E então se no porvir o ardente culto

Que eu te votava, ó sombra idolatrada,

Tivesse de findar, antes sepulto

Seja todo este amor na urna gelada.

 

Foste feliz talvez, talvez na vida

Tivesses de provar amarga taça,

E hoje à sombra da campa, adormecida

Colhes a prece e o choro de quem passa.

 

Vivias para amar, morreste amando,

Morreste rodeada do perfume

Da divindade, e virgem, não ansiando

No pungir aflitivo do ciúme.

 

Morreste amando e amada. Sobre o leito

Onde tombaste inânime, sentiste

A sacra chama que me enchia o peito

E na extrema agonia ainda sorriste.

 

Não devo lamentar-te, não. Podias

Sentir na vida dores que ignoraste;

E eu mesmo, a quem do túmulo sorrias,

Talvez te desse a coroa, que enjeitaste;

 

A coroa do martírio, que a não colhe

Quem verga, como tu, tão cedo à terra;

Mas sim quem vive e ao túmulo se colhe

Depois de transes de porfiada guerra.

 

Eu li na descrição de antigas viagens

O destino de um náufrago, que os ventos

Sobre parcéis e incógnitas voragens

De longe arremessaram violentos.

 

Ia a desfalecer, no húmido abismo

Buscando o último leito e o eterno olvido,

Mas no esforço do extremo paroxismo

Firmou-se às rochas de um penhasco erguido.

 

E salvou-se! prostrado sobre as

Ao Eterno com júbilo agradece;

E, olhando ao longe as furiosas vagas,

Do destino dos mais se compadece.

 

Mas bem cedo na estéril penedia

Colheu o triste amargo desengano,

Vendo seguir-se um dia após um dia,

E tudo só na vastidão do oceano.

 

Era a mudez da campa! Em passos lentos

Se aproximava a descarnada fome;

Longos dias de horríficos tormentos

A preceder-lhe um túmulo sem nome!

 

Até que enfim o pobre, quase louco,

Pra fugir à tortura que o devora,

Nas próprias ondas, que evitara há pouco,

Busca o refúgio, o passamento, agora!

 

Nos naufrágios da vida, quantas vezes

Nós, pobres nautas, o furor das vagas

Vencemos, para mais ríspidos reveses

Irmos sofrer em solitárias plagas!

 

Feliz o que sucumbe na tormenta;

Um instante de angústia... e o eterno sono

O livra do martírio que experimenta

O que sofre na Terra o abandono.

 

Feliz pois tu, que cedo desfolhada

Caíste, ó bela flor, no chão da morte;

Quem sabe o que na página cerrada

Do livro seu te reservava a sorte?

 

20 de Dezembro de 1861