Júlio Dinis

AQUELA VELHA!

Aquela velha! coitada!

Se lhe soubessem a vida,

Não passaria na estrada

Assim desapercebida.

 

Vive só; mas vive agora,

Que num tempo já volvido

Houve na casa em que mora

Filhos, netos e marido.

 

Morreu primeiro o marido

De uma morte desastrosa;

Com o coração partido

Rezou por ele, piedosa.

 

Morreram-lhe os filhos todos

No tempo da epidemia;

Ela com os mesmos modos

Rezou de noite e de dia.

 

Ficara só com três netos;

Morreram de tenra idade;

E ela viúva de afetos

Venceu, rezando, a saudade.

 

E ainda vive! O que alenta

Aquela alma atribulada?

É a fé que lhe alimenta

Uma crença inabalada.

 

Ai, quem me dera esse alento

Nestes combates da sorte!

Que paz para o pensamento!

Que paz na hora da morte!