Júlio Dinis
V
Era ao tempo das Trindades:
As aves, que pressagiam
O chegar das tempestades,
Amedrontadas gemiam.
A mãe segue na carreira
Uma vaga e outra vaga.
«Terça-feira! terça-feira!»
Lhe diz uma voz pressaga.
Já treme. Os olhos velados,
Onde a angústia se revela,
Pelos mares agitados
Não descobrem uma vela.
E as nuvens correm velozes,
E o vento revolve a areia.
Já se ouvem confusas vozes
Na praia de gente cheia.
Velhos, mães, tristes esposas,
Crianças nuas, em choro,
Altas vozes, lastimosas,
Erguem num sinistro coro.
Que cena! e redobra o vento,
E condensa-se a neblina,
E o mar rebrame violento,
E a noite a cena domina.
E à luz de algumas fogueiras
Escassa, tênue, funesta,
Movem-se sombras ligeiras
Como se em diabólica festa.
E ela, a mãe em desatino,
Corre, pára, escuta, chora,
Maldiz o poder divino...
Depois seu perdão implora.
Os olhos na sombra fitos,
Dessa noite escura, escura,
Eleva-os ao Céu aflitos,
E em vão um astro procura.
E o raio, que as trevas densas
De vez em quando devassa,
Mostra-lhes vagas imensas,
Negros abismos, e passa.